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quinta-feira, 20 de junho de 2013

Aconteceu assim



Foi ele o primeiro a vê-la. Desacelerou o passo e não se importou com os encontrões dos turistas que vagueavam pela calçada entre sorrisos, fotografias e cheiro a flores. Engoliu em seco. Há anos que não a via. Continuava linda: naquele jeito pequenino e sorridente de ser. Olhava tudo à sua volta e tinha um semblante feliz, como se estivesse de bem com a cidade que calcorreava.
 
 
Ela viu-o. Apesar dos óculos de sol, ele percebeu que ela o vira. Estacou. Fez-se séria. Retomou o passo: agora lento, muito lento. Conhecia aqueles traços de cor, conhecia cada contorno daquele rosto, do corpo que o fato escuro escondia, e – mesmo passados estes quase vinte anos – ainda sabia a que cheirava a sua pele.
 
Pisavam ambos a calçada gasta, sem pressa; caminhavam cautelosamente (?), talvez nervosamente, como quem estuda o que fazer ou o que dizer a seguir – quando chegasse o momento. Não reparavam nos turistas, nos passantes, no movimento automóvel, no reboliço citadino daquele final de manhã, no sol quente de Julho que trazia o cheiro de Verão, de praia e de mar. Aproximavam-se devagar como se um atraísse – irremediavelmente – o outro.
 
Ele tocou o nó da gravata encarnada que sobressaía no fato escuro de porte elegante. Secou-se-lhe a boca. Coração disparado. Leve sorriso disfarçando um qualquer nervosismo que se instalara.
 
Ela tentou – quase ingloriamente – ordenar o pensamento. As pernas fraquejaram. O coração batia, desenfreadamente, parecendo querer saltar do seu peito.
 
Ele deu-lhe um “Olá! Há quanto tempo” enquanto segurava a sua face com a mão direita e beijava a outra, tão pouco apressadamente. Nesses segundos que demoram um beijo, ele sentiu a sua pele, o cheiro do seu cabelo e deixou-se transportar para um tempo longínquo, onde a felicidade se escrevia nos olhares cúmplices, nas mãos que tocavam outras e nas palavras carregadas de futuro.
 
Ela retribuiu com um “É verdade. Foi muito tempo!”, e deu-lhe um beijo também, um beijo mais envergonhado. Sentiu o calor, bebeu o instante e, nos mesmos segundos que demoram um beijo, viajou com ele por momentos felizes, que de tão felizes se tornaram eternos. Sorriu. Agradeceu a Deus este reencontro.
 
Ele perguntou-lhe pela vida. O que é que a vida fizera dela. Enquanto ouvia o relato de uma vida profissional bem-sucedida e a síntese de um casamento fracassado, lembrou-se do modo como se haviam separado, há muitos anos atrás. Sentiu um arrepio. Como tinha sido tolo. Toda a vida lutou por afastar da mente tal pensamento.
 
Ela também quis saber sobre o que a vida tinha reservado para ele. E ele contou. E o som sibilante que ele faz ao falar, os olhos sorridentes, o inevitável gesticular de mãos, fizeram-na pensar no quanto queria ter feito parte da sua história. Não aconteceu.
Ele prendeu uma madeixa do cabelo dela atrás da orelha, num gesto que, para os dois, era natural de tão familiar.
 
Ela ofereceu-lhe um sorriso franco – daqueles que entram no olhar e calam lá dentro, bem fundo na alma.
 
 
As perguntas e respostas surgiram atropeladas. Ele sugeriu acompanhá-la. Mudaria de direcção e assim conversariam por mais algum tempo. Ela aquiesceu.
 
Eu fiquei a vê-los desaparecer por entre a multidão de turistas que vagueavam pela calçada entre sorrisos, fotografias e cheiro a flores.
 

Não sei o que aconteceu depois.  

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