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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Dos contos de fadas


Ele embrulhou a palavra pequenina na seda daquela manhã. Sorriu – tremulamente.
Por instantes, deixou-se ficar em estado de feliz contemplação: imaginou o momento; imaginou os olhos dela, colados nos seus; imaginou o sorriso envergonhado, escondido nas cascatas de loiros caracóis.

Abeirou-se da janela e sorveu o ar frio: estava nervoso. Mais uma golfada de ar e rodou nos calcanhares: tinha de ir, fazia-se tarde.

Pegou no embrulho, com a delicadeza própria de quem leva a vida na palma das mãos, e saiu.

Aconchegou o casaco e apertou o peito com os braços. Estaria com frio ou quereria apenas sossegar o coração inquieto?

Atravessou o seu bairro – passo apressado; cabeça na lua; sorriso estampado. E se…? Não. Optou por nem colocar a hipótese. Só mais um quarteirão. Consultou o relógio: não estava atrasado.
Abrandou o passo como se, de repente, não tivesse pressa. Chegou. Espreitou, nervosamente, pelo vidro que fazia de montra aos imensos doces da confeitaria.

Vislumbrou-a numa mesa de esquina. Livro na mão, chávena fumegante em cima da mesa. Estaria a sorrir? Sentiu-se fraco. Fechou os olhos. Respirou fundo. Acariciou o embrulho, com a mesma delicadeza de quem leva a vida na palma das mãos. Entrou.
Dirigiu-se à mesa e estacou: sorriso aparvalhado.

Ela levantou os olhos e abriu um sorriso:

- Chegaste. Que bom. Senta-te.

E ele sentou-se. Falaram sobre o tempo, sobre a manhã que – para os dois – parecia radiosa, sobre o romance que ela lia, sobre as letras das canções de Vinicius, Jobim e Buarque, falaram sobre lugares distantes – os que conheciam e os que gostariam de visitar -, sobre sonhos irrealizados, sobre projectos de vida…
Esqueceram-se da timidez que sempre haviam sentido quando estavam um com o outro, ele esqueceu-se de olhar nervosamente para as mãos, ela esqueceu-se de esconder a face rosada sob a cascata de caracóis loiros.

E ele ganhou coragem e entregou-lhe a palavra pequenina que havia embrulhado na seda daquela manhã:
- Amo-te, Ana.

Humedeceram-se-lhe os olhos e ela sorriu o sorriso mais doce.

E ele fê-la feliz, para todo o sempre!

2 comentários:

  1. Gostei muito! Por momentos fez-me sonhar que o romantismo masculino ainda existe...

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  2. É claro que o romantismo masculino ainda existe. Quando há Amor. Muitos parabéns Susana por (mais)um texto delicioso.

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