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sábado, 9 de novembro de 2013

Ah! Se eu pudesse...



Ah! Se eu pudesse… ter-te por mais uns minutos e recortar-te das sombras dos dias que demoram em mim! Se eu pudesse dizer-te que não quero que vás, que não quero deixar-te, que não quero perder-te nas vielas que se esgueiram à procura do mar.
 
Ah! Se eu pudesse segurar as tuas mãos e guiar-te pelos caminhos que o meu corpo esconde atrás da neblina desta manhã. Ah! Se eu pudesse olhar o fundo dos teus olhos e prometer que o futuro é hoje e aqui… Se eu pudesse, meu amor, se eu pudesse!
 
Ah! meu amor, meu amor! Se eu pudesse mostrar-te que a magia dos dias azuis mora no beiral das nossas manhãs; que os segredos que partilhámos estão guardados na areia que me acaricia os pés; que os beijos trocados penduram-se na árvore do meu coração nas tardes melancólicas deste jardim; que as promessas sinceras passeiam-se ao vento com os véus de incerteza que cobrem os meus ombros nus; e que as juras, as juras, meu amor, foram com as marés da noite em que acordei sem ti.
 
Ah! Se eu pudesse… apontar-te-ia o pássaro que bebeu o orvalho da nossa manhã; contar-te-ia do barco que acabou de aportar, ali mesmo em baixo onde começa o mar; emprestar-te-ia sorrisos colhidos aqui e ali, como quem apanha flores para engalanar a dor que teima em ficar; ler-te-ia uma história que fala de verdade e de abraços (embrulhados em fitas encarnadas) e de mãos dadas e de amor e de felizes para sempre!
 
Ah! Se eu pudesse, meu amor… ah! faria dos meus dias outros dias contigo, querer-te-ia em mim e ficaria em ti, como no para sempre das histórias bonitas onde a verdade e o amor estão sempre de mãos dadas!

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Aconteceu assim



Foi ele o primeiro a vê-la. Desacelerou o passo e não se importou com os encontrões dos turistas que vagueavam pela calçada entre sorrisos, fotografias e cheiro a flores. Engoliu em seco. Há anos que não a via. Continuava linda: naquele jeito pequenino e sorridente de ser. Olhava tudo à sua volta e tinha um semblante feliz, como se estivesse de bem com a cidade que calcorreava.
 
 
Ela viu-o. Apesar dos óculos de sol, ele percebeu que ela o vira. Estacou. Fez-se séria. Retomou o passo: agora lento, muito lento. Conhecia aqueles traços de cor, conhecia cada contorno daquele rosto, do corpo que o fato escuro escondia, e – mesmo passados estes quase vinte anos – ainda sabia a que cheirava a sua pele.
 
Pisavam ambos a calçada gasta, sem pressa; caminhavam cautelosamente (?), talvez nervosamente, como quem estuda o que fazer ou o que dizer a seguir – quando chegasse o momento. Não reparavam nos turistas, nos passantes, no movimento automóvel, no reboliço citadino daquele final de manhã, no sol quente de Julho que trazia o cheiro de Verão, de praia e de mar. Aproximavam-se devagar como se um atraísse – irremediavelmente – o outro.
 
Ele tocou o nó da gravata encarnada que sobressaía no fato escuro de porte elegante. Secou-se-lhe a boca. Coração disparado. Leve sorriso disfarçando um qualquer nervosismo que se instalara.
 
Ela tentou – quase ingloriamente – ordenar o pensamento. As pernas fraquejaram. O coração batia, desenfreadamente, parecendo querer saltar do seu peito.
 
Ele deu-lhe um “Olá! Há quanto tempo” enquanto segurava a sua face com a mão direita e beijava a outra, tão pouco apressadamente. Nesses segundos que demoram um beijo, ele sentiu a sua pele, o cheiro do seu cabelo e deixou-se transportar para um tempo longínquo, onde a felicidade se escrevia nos olhares cúmplices, nas mãos que tocavam outras e nas palavras carregadas de futuro.
 
Ela retribuiu com um “É verdade. Foi muito tempo!”, e deu-lhe um beijo também, um beijo mais envergonhado. Sentiu o calor, bebeu o instante e, nos mesmos segundos que demoram um beijo, viajou com ele por momentos felizes, que de tão felizes se tornaram eternos. Sorriu. Agradeceu a Deus este reencontro.
 
Ele perguntou-lhe pela vida. O que é que a vida fizera dela. Enquanto ouvia o relato de uma vida profissional bem-sucedida e a síntese de um casamento fracassado, lembrou-se do modo como se haviam separado, há muitos anos atrás. Sentiu um arrepio. Como tinha sido tolo. Toda a vida lutou por afastar da mente tal pensamento.
 
Ela também quis saber sobre o que a vida tinha reservado para ele. E ele contou. E o som sibilante que ele faz ao falar, os olhos sorridentes, o inevitável gesticular de mãos, fizeram-na pensar no quanto queria ter feito parte da sua história. Não aconteceu.
Ele prendeu uma madeixa do cabelo dela atrás da orelha, num gesto que, para os dois, era natural de tão familiar.
 
Ela ofereceu-lhe um sorriso franco – daqueles que entram no olhar e calam lá dentro, bem fundo na alma.
 
 
As perguntas e respostas surgiram atropeladas. Ele sugeriu acompanhá-la. Mudaria de direcção e assim conversariam por mais algum tempo. Ela aquiesceu.
 
Eu fiquei a vê-los desaparecer por entre a multidão de turistas que vagueavam pela calçada entre sorrisos, fotografias e cheiro a flores.
 

Não sei o que aconteceu depois.  

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Dos contos de fadas


Ele embrulhou a palavra pequenina na seda daquela manhã. Sorriu – tremulamente.
Por instantes, deixou-se ficar em estado de feliz contemplação: imaginou o momento; imaginou os olhos dela, colados nos seus; imaginou o sorriso envergonhado, escondido nas cascatas de loiros caracóis.

Abeirou-se da janela e sorveu o ar frio: estava nervoso. Mais uma golfada de ar e rodou nos calcanhares: tinha de ir, fazia-se tarde.

Pegou no embrulho, com a delicadeza própria de quem leva a vida na palma das mãos, e saiu.

Aconchegou o casaco e apertou o peito com os braços. Estaria com frio ou quereria apenas sossegar o coração inquieto?

Atravessou o seu bairro – passo apressado; cabeça na lua; sorriso estampado. E se…? Não. Optou por nem colocar a hipótese. Só mais um quarteirão. Consultou o relógio: não estava atrasado.
Abrandou o passo como se, de repente, não tivesse pressa. Chegou. Espreitou, nervosamente, pelo vidro que fazia de montra aos imensos doces da confeitaria.

Vislumbrou-a numa mesa de esquina. Livro na mão, chávena fumegante em cima da mesa. Estaria a sorrir? Sentiu-se fraco. Fechou os olhos. Respirou fundo. Acariciou o embrulho, com a mesma delicadeza de quem leva a vida na palma das mãos. Entrou.
Dirigiu-se à mesa e estacou: sorriso aparvalhado.

Ela levantou os olhos e abriu um sorriso:

- Chegaste. Que bom. Senta-te.

E ele sentou-se. Falaram sobre o tempo, sobre a manhã que – para os dois – parecia radiosa, sobre o romance que ela lia, sobre as letras das canções de Vinicius, Jobim e Buarque, falaram sobre lugares distantes – os que conheciam e os que gostariam de visitar -, sobre sonhos irrealizados, sobre projectos de vida…
Esqueceram-se da timidez que sempre haviam sentido quando estavam um com o outro, ele esqueceu-se de olhar nervosamente para as mãos, ela esqueceu-se de esconder a face rosada sob a cascata de caracóis loiros.

E ele ganhou coragem e entregou-lhe a palavra pequenina que havia embrulhado na seda daquela manhã:
- Amo-te, Ana.

Humedeceram-se-lhe os olhos e ela sorriu o sorriso mais doce.

E ele fê-la feliz, para todo o sempre!