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segunda-feira, 4 de junho de 2012

Não era esta a sua hora


Sentou-se na mesa redonda da sala – a que ficava mais perto da janela, sobre o mar – e olhou para a folha de papel: limpa, branca, imaculada e inocente (poder-se-ia chamar inocente a uma folha de papel?). Tremiam-se-lhe as mãos quando pegou na caneta de tinta azul; largou-a de imediato, como se o objecto fosse feito de um fogo acre e redutor, e enfiou os dedos na espessa cabeleira, em jeito desesperado de quem só tem tudo a perder. Fixou o olhar no horizonte – do modo que fazia todas as manhãs, antes de iniciar as suas prazenteiras horas de escrita – mas não encontrou a inspiração que, há anos, o distinguia como grande escritor da actualidade.
Procurava as palavras: as mais acertadas. Haveria palavras certas e honestas para anunciar e justificar uma morte? Relutante, mirou a folha que permanecia – imóvel – à sua frente. Estava prestes a desvirginá-la mas, desta vez, sabia que não tiraria desse acto qualquer prazer. As palavras continuavam a atropelar-se na sua mente, chocavam umas com as outras – sem piedade, sem sentido, sem alma e já sem vida. Voltou a segurar a caneta; a mão ainda tremia e as lágrimas - roladas e espessas - que agora desciam as fendas profundas do seu rosto sofrido, pareciam querer acalmar o fogo que o consumia.
Forçou-se a cumprir a missão que o levara a sentar-se ali: escreveu: “Querida Eva, se estiveres a ler estas linhas é sinal de que já não estou convosco. Não posso pedir-te que me…”. Foi, subitamente, atingido por uma dor insuportável que lhe tolhia os movimentos, como se o seu corpo protestasse e se recusasse a aceitar o que a sua mente estava prestes a ditar para o papel. Num gesto de repulsa, voltou a atirar a caneta de tinta azul para a mesa. Puxou as pernas – para cima da cadeira que também era branca - e abraçou-as com força, na ilusão instintiva de que a posição, quase fetal, amenizaria aquela dor. Soltou um grito rouco e agonizante e caiu – sem forças – num choro compulsivo que já não lavava a alma.
Ouviu-se o som da chave a virar na fechadura (há quanto tempo estaria naquela letargia?); Eva entrava com o seu sorriso habitual e com a leveza de quem sabe que as crises são cíclicas e que as dívidas acabam por pagar-se; não reparou no seu ar de desespero quando lhe deu um beijo e perguntou: “Ainda trabalhas, meu amor?”; Clarinha correu para ele e - já dentro de um abraço – gritou: “Papá! Papá!”.
Raúl amarfanhou a folha branca que o ameaçava de morte: adiou um projecto.

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