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sexta-feira, 15 de junho de 2012

Um café e um amor


‘Quero um café e um amor, quentes, por favor.’ – li, há dias, esta frase num post qualquer e decidi ensaiá-la no simpático barzinho lá da rua, onde paro pela tarde antes de recolher a casa.

D. Antónia - figura pesada que, há mais de 20 anos, cria raízes atrás do balcão de madeira - fixou-me o olhar: não sei se zombeteiro, se apiedado; esboçou um meio sorriso e voltou costas para tirar a minha bica: ‘Aqui está o cafezinho, menina. O amor vem já.’ Ri-me com vontade: ‘Então ouviu, D. Antónia?’; ‘Ouvi, ouvi, menina. Sabe? Com o amor é assim mesmo. Às vezes, atrasam-se na entrega, mas chega sempre.’

O meu sorriso franco fechou-se de va ga ri nho, e os meus olhos procuraram a chávena – ainda cheia de café fumegante; desviaram-se para o pacote de açúcar (que ela sabe que eu não vou consumir mas que, teimosamente, insiste em pôr no pires todos os dias); os meus dedos brincaram com a pequena colher que revela o desgaste das muitas lavagens, devido ao uso (ou ao desuso). Senti o coração apertado e havia um ‘não-sei-quê’ que me impedia de enfrentar os olhos pachorrentos de D. Antónia. Os meus fizeram berço a lágrimas (de saudade? de pena da coitadinha que, naquele momento, habitava em mim?) e as minhas pernas enrijeceram-se na hesitação: acabar o café ou sair dali a correr.  Senti o braço determinado da D. Antónia que me envolvia e me empurrava para uma mesinha de esquina. Olhei para ela (acho que nunca a tinha visto do lado de cá do balcão: não a imaginava tão pequena), deixei que as lágrimas caíssem e sentei-me, em frente àquela senhora que eu conhecia (?) há tantos, tantos anos.

Segurou as minhas mãos entre as suas e deixou que o silêncio apaziguasse a minha alma e secasse a saudade que me escorria dos olhos. Só depois falou. Lembrava-se de mim (desde os meus quase 17 anos) e lembrava-se do Manel: do nosso namoro, do nosso noivado e do dia em que desapareceu - para sempre - da minha vida. Lembrava-se do brilho dos meus olhos e do cantarolar da minha voz sorridente – até então. Lamentava a tristeza e a tormenta em que, agora, todos os dias me via; achava – muito convictamente – que eu tinha baixado os braços, trancado a porta e deixado o amor lá fora.

Não me pediu explicações, nem, tão-pouco, fez pausas que me permitissem uma qualquer argumentação. Possuidora de uma sensibilidade inteligente, D. Antónia sabia o segredo das palavras e conquistou a minha atenção e o meu coração. Contou-me histórias fantásticas – da vida trivial, de desencontros, de amores ímpares e de desilusões avassaladoras – como se me mostrasse a sua colecção privada de cromos de experiências e afectos. 

O senhor Joaquim já há muito havia fechado a porta e empilhado as cadeiras, a menina Carla há muito havia gritado: ‘Até amanhã, D. Antónia!’; e a noite já ia alta quando me disse: ‘Vá menina, vamos descansar - que amanhã também é dia.’ Dei-lhe um abraço demorado e sentido e, no meio de um ‘obrigada’, colei-lhe um beijo na face. Humedeceram-se-lhe os olhos.

Dobrei a esquina e entrei em casa. Deitei-me com os gestos simples e com as palavras sábias e certeiras da D. Antónia. O meu mundo estava bem mais descomplicado quando adormeci.  A partir de então, passei a tomar o meu café com a velha senhora e a beber das suas palavras e dos seus ensinamentos. Destranquei a porta – não fosse o amor querer entrar.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Não era esta a sua hora


Sentou-se na mesa redonda da sala – a que ficava mais perto da janela, sobre o mar – e olhou para a folha de papel: limpa, branca, imaculada e inocente (poder-se-ia chamar inocente a uma folha de papel?). Tremiam-se-lhe as mãos quando pegou na caneta de tinta azul; largou-a de imediato, como se o objecto fosse feito de um fogo acre e redutor, e enfiou os dedos na espessa cabeleira, em jeito desesperado de quem só tem tudo a perder. Fixou o olhar no horizonte – do modo que fazia todas as manhãs, antes de iniciar as suas prazenteiras horas de escrita – mas não encontrou a inspiração que, há anos, o distinguia como grande escritor da actualidade.
Procurava as palavras: as mais acertadas. Haveria palavras certas e honestas para anunciar e justificar uma morte? Relutante, mirou a folha que permanecia – imóvel – à sua frente. Estava prestes a desvirginá-la mas, desta vez, sabia que não tiraria desse acto qualquer prazer. As palavras continuavam a atropelar-se na sua mente, chocavam umas com as outras – sem piedade, sem sentido, sem alma e já sem vida. Voltou a segurar a caneta; a mão ainda tremia e as lágrimas - roladas e espessas - que agora desciam as fendas profundas do seu rosto sofrido, pareciam querer acalmar o fogo que o consumia.
Forçou-se a cumprir a missão que o levara a sentar-se ali: escreveu: “Querida Eva, se estiveres a ler estas linhas é sinal de que já não estou convosco. Não posso pedir-te que me…”. Foi, subitamente, atingido por uma dor insuportável que lhe tolhia os movimentos, como se o seu corpo protestasse e se recusasse a aceitar o que a sua mente estava prestes a ditar para o papel. Num gesto de repulsa, voltou a atirar a caneta de tinta azul para a mesa. Puxou as pernas – para cima da cadeira que também era branca - e abraçou-as com força, na ilusão instintiva de que a posição, quase fetal, amenizaria aquela dor. Soltou um grito rouco e agonizante e caiu – sem forças – num choro compulsivo que já não lavava a alma.
Ouviu-se o som da chave a virar na fechadura (há quanto tempo estaria naquela letargia?); Eva entrava com o seu sorriso habitual e com a leveza de quem sabe que as crises são cíclicas e que as dívidas acabam por pagar-se; não reparou no seu ar de desespero quando lhe deu um beijo e perguntou: “Ainda trabalhas, meu amor?”; Clarinha correu para ele e - já dentro de um abraço – gritou: “Papá! Papá!”.
Raúl amarfanhou a folha branca que o ameaçava de morte: adiou um projecto.