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segunda-feira, 28 de maio de 2012

Porque hoje o tempo dói


Um pesadelo ter de sair - mais uma vez - do morno dos lençóis a meio da noite. Há noites assim, que se deitam angustiadas, magoadas ou sofridas. Deixam de ser noites e passam a ser outra coisa qualquer; derramam lágrimas, deambulam pela casa, (des)arrumam prateleiras e gavetas à procura de respostas e de soluções onde elas não estão. São noites intermináveis, de silêncios tristes e de buscas interiores solitárias, de esperas atormentadas pelo despontar da aurora.

E eis que o dia nasceu indefinido, incerto, inseguro. O sol teimou em não aparecer e o ar estava algo entre o abafado e o sufocante. O exército de pássaros, que costuma passar revista às manhãs, parecia ter batido em retirada e os seixos rolados sossegavam tímidos e arrepiados na praia, como se não se quisessem molhar naquele mar de azul zinco estagnado. Surgem os primeiros transeuntes: eles bafejando cigarros, com cabelos abrilhantados por uma graxa qualquer, mãos e rostos marcados por vidas de labuta, pés que se arrastam pesados num chão gasto e sujo com trilhos marcados e com direcção; elas afogueadas, apressadas – porque se faz tarde e a vida não espera – entre um autocarro e outro, carregando sacos em mãos grossas com vernizes descascados, envergando saias pretas ( bem abaixo dos joelhos) que atrapalham os passos cansados e doídos do corre-corre infernal dos dias que se atropelam. E há o barco que atraca no cais – virá da pesca? Não se vê peixe. Só rostos fechados, enrugados e escurecidos pelo sol, silenciados pelo cansaço das noites que doem no corpo e na alma das gentes que trazem o mar no olhar. Mais acima, no mercado municipal, arrastam-se corpos que, pachorrenta e vagarosamente, carregam cestos de frutas e legumes frescos, coloridos, vistosos, que contrastam com a lassidão deste dia que dói. Mais uma vez as mulheres em azáfama, cabelos ainda molhados, as faces rosadas, a preparar as suas bancadas com apreço; os homens com olhos cansados e raiados de sangue, denunciando noites curtas com vinho, bagaços e cigarros baratos. Os mesmos cigarros, agora pendurados nos lábios arroxeados que soltam fumo espesso para as flores viçosas que as mãos calejadas arranjam em ramos: é blasfémia! A cidade começa a encher-se de carros, de barulho – muito barulho, um barulho que dói -, condutores pouco tolerantes e muito apressados; começa a encher-se de gente – gente anónima, que parece transportar em si histórias carregadas de sofrimento; começa a encher-se de crianças puxadas pelas mãos das mães – mochilas às costas, batas engomadas, cabelos penteados e alinhados, a esfregar os olhos para afugentar o sono que ainda mora por ali; começa a encher-se de gente que, sem sequer o ver, se desvia cuidadosamente do mendigo que dorme na rua, sujo e a cheirar mal.

Ai, eu quero sair daqui! Não posso, não aguento, não quero estar aqui. Dói-me a alma, dói-me o corpo, dói-me o dia, dói-me o tempo! Vou embora!

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