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sábado, 5 de maio de 2012

E as estrelas, mãe? Onde estão as estrelas?


- Será que as estrelas morreram, mãe?
- Que disparate, filho. As estrelas não morrem.
- Então, onde foram? Fugiram, mamã? Estão escondidas? Acha que elas estão com medo do escuro?
- Oh filho!...  
Será que estou a sentir a impaciência a apoderar-se de mim? Como é que as crianças conseguem perguntar tantas coisas ao mesmo tempo? Vou à janela, tentar perceber o que raio se passou com as estrelas! Onde é que elas se meteram? Tenho tanta coisa ainda para fazer: dar um jeito na cozinha – que ficou “de pantanas” após o jantar; preparar os lanches para os miúdos levarem amanhã para a escola; organizar as máquinas de lavar roupa e louça – para só ligar às 23h, na esperança de poupar qualquer coisa com o contador bi-horário; depois, verificar as mochilas para não faltar nenhum livro, nenhum lápis ou borracha; aprontar as roupas para o dia seguinte – sem esquecer o saco separado para o ballet: as sapatilhas, as redes, agulhas e ganchos para o cabelo, o maillot e as fitas; e o saco para o futebol: equipamento completo, chuteiras e a braçadeira de capitão que usará orgulhosamente esta semana pelo bom desempenho no jogo de sábado!
- Vê, mamã? Não estão lá, eu tinha dito! – e abraça-se à minha perna com toda a força, à procura de abrigo e protecção para a dor que, subitamente, assaltou aquele coraçãozinho.
Afago-lhe os caracóis louros e sorrio… seco-lhe as lágrimas roliças e aconchego-o no meu colo. (Isto das estrelas é um assunto sério! Quase à escala do nosso amor.) Empurramos a chaise-longue para bem perto da janela da sala de estar e fitamos o céu nublado de Inverno.
- Sabes o que acho, meu pequenino? Que as tuas estrelinhas já foram dormir. Devíamos fazer o mesmo, vá, a mãe conta-te uma história…
- Não, quero ficar aqui, quero ver se aparecem! Por favor, mamã…
Quem é que resiste a um “pu favô” destes? Fixo, de novo, o céu vazio de luz, enquanto aperto o meu menino contra o peito. Já me está a apetecer zangar com as estrelas por elas não aparecerem… Tenho ainda tanto para fazer: ainda me espera a saga da lavagem dos dentes; os momentos de leitura – no quarto de um e de outro – que se alongam sempre com perguntas e com mais porquês e com tantas sugestões de final de história quanto o sono – ou a falta dele - permite. E quando a casa estiver, finalmente, mergulhada no silêncio, chegará a hora de organizar as minhas coisas e preparar mais um dia: sentar-me no cantinho que me serve de escritório e responder aos e-mails que ainda aguardam o meu parecer; ler as notícias do jornal de hoje – que, entretanto, perderam a actualidade; apontar os últimos gastos, regularizar contas (sim! Porque alguém tem de fazer a economia doméstica!), planear os próximos menus, consultar…
- Porque é que o mano está aqui, mãe? Não vai dormir?
- Vai já, princesa, está só à espera que apareçam as estrelas, para poder dormir descansado.
- Posso ficar um bocadinho também?
E enrosca-se nos meus braços com um suspiro profundo, daqueles que parecem dizer que o seu lugar é ali. E eu volto a sorrir, com os dois aconchegados. O cheirinho deles, o calor que emanam aqueles ‘bocadinhos de gente’ e o efeito que têm no meu sentir de mãe, transportam o meu pensamento para a analogia quase perfeita que fez, há dias, um amigo ao dizer que, quando os nossos filhos nascem, o nosso coração passa a andar fora do corpo. Passeio-me por memórias, não muito longínquas, de dias tão felizes que apagaram as noites mal dormidas, as fraldas, as asmas, as febres, as viroses e afins. Recuo ao princípio quase umbilical em que eu própria, sonhadora, olhava as estrelas e nelas projectava toda a poesia de sentimentos que já viviam dentro de mim e dentro da vida que havia em mim.
E sabe bem trilhar as recordações que fazem parte deste crescer bordado de ensinamentos e afectos, sustentado num amor que é sempre conjugado no indomável e no incondicional.  
E sabe bem tê-los aqui, comigo e em mim… e é minha missão fazê-los felizes, mesmo que para isso tenha de adiar a logística doméstica e familiar, e tenha de sentar-me aqui… à espera de estrelas que - eu sei - jamais morrerão!

2 comentários:

  1. Um dia, no avião com a minha mãe, devia ter uns 5 anos, olhei pela janela e perguntei-lhe onde estava Deus, já que diziam que estava no céu e eu não via nada. Não me lembro da resposta. Realmente as crianças vivem num mundo de sonhos e fantasias e vale, mais do que tudo, muito a pena, prolongar sempre esse mundo, essa paz feliz se ser criança.

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