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quinta-feira, 17 de maio de 2012

Discurso mais que directo



- Meninos, venham para a mesa! O jantar está pronto.
- Vou já, mãe. Estou só a acabar este jogo.
- Vá, Ricardo, acabas depois. Agora vem comer.
- O que é o jantar, mãe?
- É o resto do assado de ontem e não quero queixumes, Teresa! Sabes que o pai tem andado cansado, não arranjes discussões, por favor! Luís, vens jantar?
- Não tenho fome!
- Por favor, Luís, senta-te connosco…
- E sento-me para quê? Eu disse que não tenho fome!
- Mas tens de comer, tens de alimentar-te e… os miúdos…
- Os miúdos, o quê? O que é que têm os miúdos? Os miúdos não são desculpa para tudo, Clarice! Estou farto disto! A Teresa tem 17 anos, está uma mulher! O Ricardo, 15! Por Deus! Já não são miúdos. Já têm boa idade para saber que a vida também é feita de instabilidades, rupturas, decepções… eles cresceram Clarice, não precisam deste tipo de protecção. E tu, mulher, que ridícula! Escudas-te nos miúdos para preservares o que já não existe… não achas que chega?
- Não fales comigo assim… já to pedi.
- E falo como, Clarice? Como é que se fala com alguém que não nos ouve? Como é que se fala com alguém que finge não perceber que já não existe nada para além da rotina e do tédio? Que insiste numa situação deplorável de coexistência! Como é que eu falo com alguém que já não me diz nada? Já não aguento isto! Não percebes que já não tolero isto?
- Luís, eu amo-te tanto, Luís… não suportaria…
- Qual não suportarias? Eu é que já não suporto estar aqui! Há dois dias que tenho as malas no carro, Clarice. Estás sempre com desculpas para evitar o inevitável… estou farto das tuas lamechices! Estou farto!
- Por favor… já to pedi. Senta-te comigo! Vamos conversar?
- Qual conversar? Não há nada para conversar: estou FAR - TO! Vou sair… vou-me embora! Podes secar as lágrimas, Clarice. Não me vou comover… tenho de ir!
- Por favor, Luís… lembra-te de nós. Lembra-te de tudo o que fomos…  sempre tão cúmplices, tão próximos, amámo-nos tanto! Tão companheiros, tão amigos, tão amantes… sonhámos juntos, planeámos juntos, traçámos juntos as linhas do nosso destino e conjugámos juntos o tempo presente e o tempo futuro.
- Chega, Clarice.
- Olha para tudo o que construímos, meu amor… olha para os nossos filhos, vê os nossos sonhos aqui, materializados. Não vires as costas à vida que sonhámos para nós… ainda não dançámos todas as músicas, Luís… ainda não navegámos todos os mares, ainda não cruzámos todos os céus… nós prometemos, lembras-te? Dissemos que quando fossemos bem velhinhos ainda iríamos contar estrelas, de mãos dadas… eu quero contá-las contigo. Lembra-te do nosso abraço, Luís… lembra-te a que sabe o nosso abraço. Procura, meu amor! Eu sei que se procurares no teu coração… eu ainda moro aí!

6 comentários:

  1. Por que razão as despedidas não são iguais, ou parecidas, aos encontros?.. Somos seres, acima de tudo, amar-nos é muito mais do que uma relação a dois. Mas os exemplos, desde sempre, na televisão, na educação, em praticamente tudo nesta sociedade, não ensinam isso, ensinam sim mágoas e tristezas e principalmente, grandes egos.

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  2. Compreendo o que queres dizer, mas não sei se é meramente uma questão cultural: as despedidas custam sempre, têm sempre um peso mais doloroso - o da perda - ou, simplesmente, evocam algo bom que, de alguma maneira, se esfumou.
    Acho que os assuntos de divórcio, em particular, são sempre penosos (independentemente do facto das pessoas se darem bem ou não e até do dito divórcio ser a melhor solução para o casal).
    Até escrever sobre o tema provoca emoções desagradáveis.

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  3. hola, he visto su blog y me encanta, me hago seguidora desde hoy, le invito a conocer mi blog y encantada si se hace seguidora. Besitos
    Que tenga buen fin de semana.

    http://silvia-artesaniadelsur.blogspot.com

    spbavg1@gmail.com

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    1. Obrigada, Sílvia!
      Também me tornei seguidora do seu blog. Gostei muito.
      Um beijinho a partir da ilha da Madeira (Portugal)
      Susana

      scaldeira40@gmail.com

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  4. Excelente texto Susana. Quando se perde a cumplicidade e a tolerância... Este texto "mexeu" comigo. Pedro

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  5. Pois, Pedro. Até comigo mexeu - quando o escrevi. :(

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