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quinta-feira, 12 de abril de 2012

Um elogio à Amizade!


Levava na “pasta da escola” os cadernos brancos, com cheiro a novo e a novidade, sedentos de letras, de magia, de aprendizagem; os livros, esmeradamente forrados – uns, orgulhosamente novinhos, outros, resignadamente herdados do irmão mais velho – onde as letras, os números e as cores bailavam, brincavam e sorriam numa promessa de fascinação e sabedoria; os lápis de cor e as canetas de feltro que traçariam – com mais ou menos jeito – rabiscos felizes de quem, com nove anos, tem o mundo nas mãos e acredita que há mesmo um pote (de ouro, ou de felicidade?) no final do arco-íris; as esferográficas, o lápis bem afiado, a borracha verde – ainda muito limpinha! – instrumentos que já ocupavam posição de destaque na vida daquela menina, a caminho da escola, numa manhã de Outubro, há muitos, muitos anos atrás.

Levava no cabelo os dourados do sol de Verão e o cheiro a mar e a outras gargalhadas; nos olhos castanhos brilhantes, a agitação e a inquietude próprias da curiosidade e da sede do reencontro; nos lábios, o sorriso nervoso de quem tem quase medo de dizer (a plenos pulmões) que é tão feliz; nas mãos transportava as certezas de que aquele ano – que importante que era, então, a 4ª classe! – só poderia ser bom porque seria encarado com empenho e afinco (havia um avô para deixar feliz e orgulhoso!); no coração levava todos os sonhos pequeninos, de quem é pequenino também, levava todos os sorrisos que abraçavam esperanças, e levava a ansiedade da novidade.

Foi nesse ano que a conheci. Era a nossa “nova coleguinha”, como anunciara a D. Conceição: uma senhora corpulenta, de voz meiga e olhos doces, que embalava as letras nos textos que líamos na sala de aula e que nos afiançava que era possível viajar através da leitura e da escrita – só tínhamos de saber ouvir o nosso coração e deixar voar a nossa imaginação. Com a mesma sabedoria, já a D. Conceição nos havia falado daquela menina (que eu em breve conheceria) e nos havia alertado para valores como a amizade, o carinho e o bem-receber. No meu íntimo, sabia que havia algo, naquele futuro próximo, que prometia qualquer coisa de “para sempre!”.

E, desde então, partilhámos as cores de todos os arco-íris, os fios dourados do sol de quase todos os verões e as gotas de chuva que embebedavam a terra, estação após estação. Enquanto crianças, brincámos e soltámos fantasias no ar; com maquilhagem, bem conseguida a partir de uma mistura de papel crepe com saliva, fizemo-nos crescidas; com letras fresquinhas, acabadinhas de aprender, redigimos bilhetinhos tolos e encurtámos distâncias; com sorrisos, segredos e cumplicidades, cimentámos uma amizade que se adivinhava para a vida.

Adolescentes, partilhámos asneiradas, idades do armário, primeiros cigarros, conquistas e desgostos de amor; estudámos, valorizámo-nos e continuámos a encurtar distâncias com cartas cheias de letras embaladas em textos, como nos ensinara a D. Conceição. Chorámos juntas até à exaustão e rimos até nos doer a barriga! Acreditámos que o mundo era nosso e que tínhamos tudo para sermos felizes.

Já adultas, continuamos as melhores amigas do “para sempre!”. Já não pintamos os lábios com papel crepe vermelho nem nos deitamos na relva molhada a contar as estrelas. A vida já nos pregou algumas partidas e também já nos mostrou o seu lado mais belo. Apesar da distância, mantemos os sorrisos, os segredos e as cumplicidades. Também acontece, tantas vezes, chorarmos até à exaustão ou rirmos até nos doer a barriga! Continuamos a acreditar que a felicidade está já ali e ainda encurtamos distâncias com letras embaladas em textos, como nos ensinou a senhora de voz meiga e olhos doces há muitos, muitos anos atrás.

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