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quinta-feira, 19 de abril de 2012

O acordar de mais um dia...



O Sol ainda só está espreitando o dia que desperta bem devagarinho. Ouço o chilrear dos pássaros que espreguiçam esta manhã primaveril e vejo o mar que ainda dorme sereno, embalado por esta ilha que é mãe. Sigo o saltitar do melro-preto, ali na relva, por entre as árvores: vai anunciando o dia que nasce, e fá-lo com estridente alegria. Sinto a brisa tímida a acariciar-me os ombros nus. Enrosco-me no meu próprio abraço: sinto-me só!
Gostava que estivesses aqui. Gostava de poder desejar-te um bom dia com cheiro a acordar, ou a espuma da barba, ou a café com leite acabado de fazer. Queria dar-te um abraço, agora, já, neste exacto momento! Queria ficar lá, dentro desse abraço, saborear o teu sabor, o teu aconchego, a tua paz.
Fecho a janela devagar, deixo o dia que acorda lá fora e volto-me para a casa despida: de cheiros, de sabores, de abraços, de ti… sorrio para a moldura da cómoda que me devolve as gargalhadas de dias felizes. Ajeito os lençóis -demasiado brancos e frios- desta cama vazia. Vagueio descalça pelo quarto, esperando que o frio do chão que eu piso me arranque desta lassidão. Olho o espelho nos olhos, firmemente, mas não vislumbro respostas. Deixo que a água morna me percorra o corpo e me lave a alma e as lágrimas que não consigo conter.
Gostava que estivesses aqui. Gostava de poder contar-te os meus planos para o dia que está a nascer do outro lado da janela. Queria ouvir a tua voz, saber de ti… ver o teu sorriso malandro quando, ao apertares o último botão da tua camisa, perguntas: “Estou bem assim?”. Queria voltar a ver-te deliciado a comer torradas com mel, enquanto ouves as notícias matinais com o teu ar mais sisudo. Queria ter-te aqui comigo, agora…
Faz-se tarde, apresso o passo, tenho de ir. Vou encontrar-me com o dia que nasceu lá fora e deixar suspensos aqui – nesta casa vazia de ti – os retalhos da nossa vida, as memórias, os segredos, as ternuras, os sorrisos. Vou reaprender, a cada dia que nasce, a cada rua que cruzo, a cada esquina que dobro, a cada pedra que piso… vou reaprender a viver, desta vez sem ti. É tarde! Não posso chorar. Apresso o passo. Tenho de ir.
Ai como eu gostava que estivesses aqui!!! Às vezes, acho que Deus se enganou! A morte é injusta! Não se nos arrancam as pessoas assim! Não assim… Seco as lágrimas, enxugo a alma e tento não levar esta dor comigo. Vou deixar a dor à porta. A porta… olho para a porta e quero ver-te: sorriso aberto, olhos doces e porte elegante. Quero sentir-te, naquele segundo que antecede a partida: um passo atrás, mais um abraço, um beijo quente e um “amo-te tudo!”.  Quero ouvir-te quando, a caminho do dia que te aguardava lá fora, mais uma vez me olhaste e, apontando para o peito, me afiançaste: “Levo-te aqui, meu amor!”.
Não quero caminhar sozinha…
Gostava que estivesses aqui!...

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