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quinta-feira, 5 de abril de 2012

A Primavera daquele mês de Agosto


 

 
Não me lembro de qualquer mês de Agosto longe daquela casinha branca plantada na colina, ali mesmo atrás do mar. Não me lembro de alguma vez ter experimentado tamanha alegria como a de, ano após ano, avistar – a partir da curva da pequena estrada onde acaba o resto do mundo – a casinha branca que a minha avó alugava ao mês. Não me lembro de momentos tão felizes como aqueles que aconteciam naqueles 31 dias de cada Agosto da minha vida. Não me lembro do meu avô, porque nunca o conheci…

A casa era pequenina, muito branca, com portadas verdes. Tinha dois quartos apenas: durante largos anos partilhei o quarto hortelã com a minha avó. O alfazema – que agora é mesmo meu! – era o quarto das visitas (onde ficavam, ocasionalmente, os meus pais). Ano após ano, os nossos dias eram preenchidos com cheiros de terra, e de mar, e de flores; com sabores doces de bolos acabados de fazer e de bolachas tenrinhas a desfazerem-se na boca; com gestos de alegria e amor puro (daqueles que só são possíveis entre pessoas que se amam assim, como eu amo aquela velhinha de cabelo feito de nuvem e de olhos doces de mel ); com palavras, com ensinamentos, com histórias… gostava, sobretudo, das histórias que envolviam o meu avô, aquele que eu nunca vi.

Conheceram-se nas férias de um Verão quente: num Julho muito longínquo. Eram almas rebeldes, livres e apaixonadas que se acreditaram gémeas. Tinham o mundo nas mãos e ainda 31 dias para pertencerem, unicamente, um ao outro. Despediram-se dos grupos de amigos veraneantes que com eles haviam iniciado viagem, passaram a curva da pequena estrada onde acaba o resto do mundo e alugaram a casinha branca plantada na colina, ali mesmo atrás do mar. Viveram a vida toda nesses poucos dias. Trocaram histórias, promessas, ternuras, planos, afagos, sonhos e sorrisos. Tal como eu e a minha avó fizemos, ao longo dos agostos dos últimos vinte e dois anos, sentavam-se no alpendre ao cair da noite e passeavam nas estrelas até que a lua escurecesse no mar.

Voltaram a casa com a promessa do Agosto seguinte. Ela continuou a alugar a casinha branca com portadas verdes, Verão após Verão. Levava sempre o coração a transbordar de saudade, os olhos doces de mel cheios de uma esperança infinita, e o sorriso, sempre presente, enfatizava a sua certeza de que a felicidade existe. Ele nunca voltou à casinha branca da colina, nunca conheceu a minha mãe, nunca me conheceu. Ela continuou a colher as flores da beira do caminho, a deixar que a maresia lhe invadisse os sentidos, a saborear cada brisa, cada raio de sol que descia sobre ela num abraço cúmplice e reconfortante. Continuou a passear nas estrelas, a ter-me por companhia, a contar-me histórias de saudade e felicidade extraordinárias. Nunca ouvi um lamento, nunca percebi uma lágrima, uma mágoa, um  queixume…

Até que hoje, nesta tarde quente de outro Agosto (agora tão distante desse primeiro), no alpendre virado para o mar onde me encontro a escrever, alguém  - de cabelo também quase nuvem, e de olhos de azul mar (espelhos dos meus, por sinal!) – se aproximou, de mãos trémulas, e perguntou: “Ainda contas estrelas, Laidinha?”. Estremeci pela surpresa. Olhei para a minha avó, com o peito cheio de tanta saudade contida, com duas bagas cristalinas que caíam desobedientes dos seus doces olhos de mel, com o sorriso de uma felicidade que ela sabia existir porque a vivera, e que ela sabia carregada de esperança quando, ainda de costas, perguntou: “Manuel?”.

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