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sexta-feira, 27 de abril de 2012

Já não tenho outro chão


Hoje é sábado. Disseram-me que é sábado. Tentei espreitar a data do jornal que estava em cima da mesa – só para certificar-me -, mas a vista já não alcança. São os óculos que reclamam reforma! Mas já não vale a pena!... Já não preciso de ler o jornal: um gesto repetido durante décadas e décadas, diariamente, após o pequeno-almoço, enquanto a minha Anita acabava de preparar os miúdos para eu levá-los à escola. Como era bonita - e paciente e dócil -, a minha Anita! A paciência era, sem dúvida, a sua maior virtude. E aqueles dois reguilas em casa… cirandavam e barafustavam e, às vezes, faziam tanto barulho que parecia que tínhamos uma equipa inteira de futebol dentro de quatro paredes.
Hoje já não preciso deles (dos óculos, claro está!). Já não leio o jornal. Ainda o folheio, é verdade. Acho que é o hábito; é pelo prazer de sentir o papel na mão. Trabalhei com papel a vida toda: fui contabilista (e sem essas máquinas modernas que sei que agora usam. Usávamos a cabeça e a inteligência que Deus nos deu!). O meu filho mais novo seguiu-me as pegadas; estabeleceu-se, está encaminhado! Muito orgulhosa ficou a minha Anita quando se formou o mais velho: um filho advogado! Era o senhor doutor lá do bairro. Chegou a apoquentar-se com o nosso caçula. Ah! mas para quê? O pequeno fez-se à vida e hoje está bem.
Será que é sábado, hoje? Penso que sim. Percebo pela azáfama - na sala de refeições – que dilui a pacatez dos outros dias, sempre mais cinzentos, o arrastar preguiçoso e cansado dos pés dos velhinhos (agora meus companheiros neste final de viagem) e o ar enfadado da D. Alzira e da menina Justina. Ao sábado e ao domingo é sempre diferente: a comida parece melhorada; há mais paciência nos gestos da D. Alzira e até a menina Justina já não diz: “Olhe só a porcaria que está a fazer, senhor Lopes. Abra a boca!”. Lembra, antes, ao pobre do Lopes, que vai receber a visita da família e que eles hão-de querer vê-lo fresquinho.
Estou a mudar de sítio, a minha cadeira é agora empurrada por alguém que me leva para a sala de convívio. Estou demasiado velho e demasiado preguiçoso para voltar-me e saber quem me conduz. Sei que vão deixar-me ali, junto à janela, para que possa ver o mar que estende o azul lá em baixo. E o mar invade-me as memórias de dias tão felizes: dias com cheiro a Anita, e a juventude, e a amigos, e a filhos pequenos… será que vêm ver-me hoje? A minha Anita não deveria ter partido antes de mim. Não é justo! Quem é que olha agora pelos miúdos? Eu já não tenho força e… estou aqui empatado, já não saio daqui, já não tenho outro chão. Será que vêm?
Sei que é sábado. Está a chegar a D. Matilde, ela só vem aos sábados. Vem ver a tia – que está mouca! Completamente surda, coitada!… Passa por mim e pergunta, amavelmente: “Como está hoje o senhor? Está um lindo dia lá fora!”. Olho para a D. Matilde, não digo nada, não esboço um sorriso – até os músculos estão preguiçosos! Sinto o perfume dela que impregna agora o ar com o adocicado das flores e sei que… oh! Chegou o filho do Sebastião, e traz os filhos pela mão. Que contente vai ficar o Sebastião. Já há semanas que não vinham visitá-lo! Será que eles vêm? Têm sempre tanto trabalho… são jovens muito ocupados e com muita responsabilidade, os meus pequenos. Dois bons rapazes, isso são!
Claro que é sábado! O filho da D. Marcolina também só vem aos sábados. Está sentado aqui à beira, com ar taciturno, mãos nervosas e irrequietas. Fala de crise e das falências que andam lá fora a assustar empresas e negócios, das lojas afamadas com papel pardo a substituir as cores vivas que, nas montras, marcavam as estações, dos políticos – “uns corruptos mentirosos que hão-de pagá-las! Sim, porque Deus não dorme” -, do desemprego que devasta famílias, fala também da crise de valores e das escolas “que já não são o que eram” e fala, fala que não se cala. E eu gosto disto de fingir que não ouço. Levam-me a sério! Não me maço, não tenho de responder ao que me perguntam e fico a saber de coisas que de outra maneira não saberia. Às vezes pode ser muito divertido!
Hoje é sábado, é mais um sábado… será que eles vêm? A menina Justina passa por mim, afaga-me o braço: “Então, hoje não teve visitas? Vai ver que amanhã aparecem.” Falta-me o ar, aperta-se-me o peito. Não quero chorar, que os homens não choram! A cadeira de rodas serpenteia os corredores. Está na hora de nos prepararmos para o jantar… sinto as faces molhadas. Mas que raio de óculos, já não valem nada, estragam-me a vista! Não, não estou a chorar, que os homens não choram! Hoje é sábado, mas eles não vieram.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O acordar de mais um dia...



O Sol ainda só está espreitando o dia que desperta bem devagarinho. Ouço o chilrear dos pássaros que espreguiçam esta manhã primaveril e vejo o mar que ainda dorme sereno, embalado por esta ilha que é mãe. Sigo o saltitar do melro-preto, ali na relva, por entre as árvores: vai anunciando o dia que nasce, e fá-lo com estridente alegria. Sinto a brisa tímida a acariciar-me os ombros nus. Enrosco-me no meu próprio abraço: sinto-me só!
Gostava que estivesses aqui. Gostava de poder desejar-te um bom dia com cheiro a acordar, ou a espuma da barba, ou a café com leite acabado de fazer. Queria dar-te um abraço, agora, já, neste exacto momento! Queria ficar lá, dentro desse abraço, saborear o teu sabor, o teu aconchego, a tua paz.
Fecho a janela devagar, deixo o dia que acorda lá fora e volto-me para a casa despida: de cheiros, de sabores, de abraços, de ti… sorrio para a moldura da cómoda que me devolve as gargalhadas de dias felizes. Ajeito os lençóis -demasiado brancos e frios- desta cama vazia. Vagueio descalça pelo quarto, esperando que o frio do chão que eu piso me arranque desta lassidão. Olho o espelho nos olhos, firmemente, mas não vislumbro respostas. Deixo que a água morna me percorra o corpo e me lave a alma e as lágrimas que não consigo conter.
Gostava que estivesses aqui. Gostava de poder contar-te os meus planos para o dia que está a nascer do outro lado da janela. Queria ouvir a tua voz, saber de ti… ver o teu sorriso malandro quando, ao apertares o último botão da tua camisa, perguntas: “Estou bem assim?”. Queria voltar a ver-te deliciado a comer torradas com mel, enquanto ouves as notícias matinais com o teu ar mais sisudo. Queria ter-te aqui comigo, agora…
Faz-se tarde, apresso o passo, tenho de ir. Vou encontrar-me com o dia que nasceu lá fora e deixar suspensos aqui – nesta casa vazia de ti – os retalhos da nossa vida, as memórias, os segredos, as ternuras, os sorrisos. Vou reaprender, a cada dia que nasce, a cada rua que cruzo, a cada esquina que dobro, a cada pedra que piso… vou reaprender a viver, desta vez sem ti. É tarde! Não posso chorar. Apresso o passo. Tenho de ir.
Ai como eu gostava que estivesses aqui!!! Às vezes, acho que Deus se enganou! A morte é injusta! Não se nos arrancam as pessoas assim! Não assim… Seco as lágrimas, enxugo a alma e tento não levar esta dor comigo. Vou deixar a dor à porta. A porta… olho para a porta e quero ver-te: sorriso aberto, olhos doces e porte elegante. Quero sentir-te, naquele segundo que antecede a partida: um passo atrás, mais um abraço, um beijo quente e um “amo-te tudo!”.  Quero ouvir-te quando, a caminho do dia que te aguardava lá fora, mais uma vez me olhaste e, apontando para o peito, me afiançaste: “Levo-te aqui, meu amor!”.
Não quero caminhar sozinha…
Gostava que estivesses aqui!...

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Um elogio à Amizade!


Levava na “pasta da escola” os cadernos brancos, com cheiro a novo e a novidade, sedentos de letras, de magia, de aprendizagem; os livros, esmeradamente forrados – uns, orgulhosamente novinhos, outros, resignadamente herdados do irmão mais velho – onde as letras, os números e as cores bailavam, brincavam e sorriam numa promessa de fascinação e sabedoria; os lápis de cor e as canetas de feltro que traçariam – com mais ou menos jeito – rabiscos felizes de quem, com nove anos, tem o mundo nas mãos e acredita que há mesmo um pote (de ouro, ou de felicidade?) no final do arco-íris; as esferográficas, o lápis bem afiado, a borracha verde – ainda muito limpinha! – instrumentos que já ocupavam posição de destaque na vida daquela menina, a caminho da escola, numa manhã de Outubro, há muitos, muitos anos atrás.

Levava no cabelo os dourados do sol de Verão e o cheiro a mar e a outras gargalhadas; nos olhos castanhos brilhantes, a agitação e a inquietude próprias da curiosidade e da sede do reencontro; nos lábios, o sorriso nervoso de quem tem quase medo de dizer (a plenos pulmões) que é tão feliz; nas mãos transportava as certezas de que aquele ano – que importante que era, então, a 4ª classe! – só poderia ser bom porque seria encarado com empenho e afinco (havia um avô para deixar feliz e orgulhoso!); no coração levava todos os sonhos pequeninos, de quem é pequenino também, levava todos os sorrisos que abraçavam esperanças, e levava a ansiedade da novidade.

Foi nesse ano que a conheci. Era a nossa “nova coleguinha”, como anunciara a D. Conceição: uma senhora corpulenta, de voz meiga e olhos doces, que embalava as letras nos textos que líamos na sala de aula e que nos afiançava que era possível viajar através da leitura e da escrita – só tínhamos de saber ouvir o nosso coração e deixar voar a nossa imaginação. Com a mesma sabedoria, já a D. Conceição nos havia falado daquela menina (que eu em breve conheceria) e nos havia alertado para valores como a amizade, o carinho e o bem-receber. No meu íntimo, sabia que havia algo, naquele futuro próximo, que prometia qualquer coisa de “para sempre!”.

E, desde então, partilhámos as cores de todos os arco-íris, os fios dourados do sol de quase todos os verões e as gotas de chuva que embebedavam a terra, estação após estação. Enquanto crianças, brincámos e soltámos fantasias no ar; com maquilhagem, bem conseguida a partir de uma mistura de papel crepe com saliva, fizemo-nos crescidas; com letras fresquinhas, acabadinhas de aprender, redigimos bilhetinhos tolos e encurtámos distâncias; com sorrisos, segredos e cumplicidades, cimentámos uma amizade que se adivinhava para a vida.

Adolescentes, partilhámos asneiradas, idades do armário, primeiros cigarros, conquistas e desgostos de amor; estudámos, valorizámo-nos e continuámos a encurtar distâncias com cartas cheias de letras embaladas em textos, como nos ensinara a D. Conceição. Chorámos juntas até à exaustão e rimos até nos doer a barriga! Acreditámos que o mundo era nosso e que tínhamos tudo para sermos felizes.

Já adultas, continuamos as melhores amigas do “para sempre!”. Já não pintamos os lábios com papel crepe vermelho nem nos deitamos na relva molhada a contar as estrelas. A vida já nos pregou algumas partidas e também já nos mostrou o seu lado mais belo. Apesar da distância, mantemos os sorrisos, os segredos e as cumplicidades. Também acontece, tantas vezes, chorarmos até à exaustão ou rirmos até nos doer a barriga! Continuamos a acreditar que a felicidade está já ali e ainda encurtamos distâncias com letras embaladas em textos, como nos ensinou a senhora de voz meiga e olhos doces há muitos, muitos anos atrás.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

A Primavera daquele mês de Agosto


 

 
Não me lembro de qualquer mês de Agosto longe daquela casinha branca plantada na colina, ali mesmo atrás do mar. Não me lembro de alguma vez ter experimentado tamanha alegria como a de, ano após ano, avistar – a partir da curva da pequena estrada onde acaba o resto do mundo – a casinha branca que a minha avó alugava ao mês. Não me lembro de momentos tão felizes como aqueles que aconteciam naqueles 31 dias de cada Agosto da minha vida. Não me lembro do meu avô, porque nunca o conheci…

A casa era pequenina, muito branca, com portadas verdes. Tinha dois quartos apenas: durante largos anos partilhei o quarto hortelã com a minha avó. O alfazema – que agora é mesmo meu! – era o quarto das visitas (onde ficavam, ocasionalmente, os meus pais). Ano após ano, os nossos dias eram preenchidos com cheiros de terra, e de mar, e de flores; com sabores doces de bolos acabados de fazer e de bolachas tenrinhas a desfazerem-se na boca; com gestos de alegria e amor puro (daqueles que só são possíveis entre pessoas que se amam assim, como eu amo aquela velhinha de cabelo feito de nuvem e de olhos doces de mel ); com palavras, com ensinamentos, com histórias… gostava, sobretudo, das histórias que envolviam o meu avô, aquele que eu nunca vi.

Conheceram-se nas férias de um Verão quente: num Julho muito longínquo. Eram almas rebeldes, livres e apaixonadas que se acreditaram gémeas. Tinham o mundo nas mãos e ainda 31 dias para pertencerem, unicamente, um ao outro. Despediram-se dos grupos de amigos veraneantes que com eles haviam iniciado viagem, passaram a curva da pequena estrada onde acaba o resto do mundo e alugaram a casinha branca plantada na colina, ali mesmo atrás do mar. Viveram a vida toda nesses poucos dias. Trocaram histórias, promessas, ternuras, planos, afagos, sonhos e sorrisos. Tal como eu e a minha avó fizemos, ao longo dos agostos dos últimos vinte e dois anos, sentavam-se no alpendre ao cair da noite e passeavam nas estrelas até que a lua escurecesse no mar.

Voltaram a casa com a promessa do Agosto seguinte. Ela continuou a alugar a casinha branca com portadas verdes, Verão após Verão. Levava sempre o coração a transbordar de saudade, os olhos doces de mel cheios de uma esperança infinita, e o sorriso, sempre presente, enfatizava a sua certeza de que a felicidade existe. Ele nunca voltou à casinha branca da colina, nunca conheceu a minha mãe, nunca me conheceu. Ela continuou a colher as flores da beira do caminho, a deixar que a maresia lhe invadisse os sentidos, a saborear cada brisa, cada raio de sol que descia sobre ela num abraço cúmplice e reconfortante. Continuou a passear nas estrelas, a ter-me por companhia, a contar-me histórias de saudade e felicidade extraordinárias. Nunca ouvi um lamento, nunca percebi uma lágrima, uma mágoa, um  queixume…

Até que hoje, nesta tarde quente de outro Agosto (agora tão distante desse primeiro), no alpendre virado para o mar onde me encontro a escrever, alguém  - de cabelo também quase nuvem, e de olhos de azul mar (espelhos dos meus, por sinal!) – se aproximou, de mãos trémulas, e perguntou: “Ainda contas estrelas, Laidinha?”. Estremeci pela surpresa. Olhei para a minha avó, com o peito cheio de tanta saudade contida, com duas bagas cristalinas que caíam desobedientes dos seus doces olhos de mel, com o sorriso de uma felicidade que ela sabia existir porque a vivera, e que ela sabia carregada de esperança quando, ainda de costas, perguntou: “Manuel?”.