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quinta-feira, 22 de março de 2012

Ela tem sardas pintadas


 
A rádio calou a voz melodiosa de Sinatra que preenchia o silêncio daquela noite tardia; as notícias foram, abruptamente, silenciadas no televisor esquecido algures numa salinha anexa; ouviu-se um último suspiro no respirar do aquecimento central; o corpo de Bernardo estremeceu, surpreendido pelo sossego ensurdecedor que, naquele segundo, mergulhava o seu mundo na escuridão.
Fechou o jornal, tirou os óculos e recostou-se na poltrona ouvindo apenas o som preguiçoso dos ponteiros do relógio que lembravam, teimosamente, que estava a ficar muito tarde, demasiado tarde. Ema telefonara durante a manhã: estava de passagem por Portugal e sugeria um encontro. Atónito pela surpresa, sentiu o sangue a querer evadir-se do corpo, as palavras a atropelarem-se num misto de gaguez e alegria, as frases a saírem desconexas, a cabeça a latejar na tentativa de organizar o pensamento e de acalmar as memórias, que insistiam em assaltá-lo naqueles breves minutos embrulhados em eternidade, em recordação e em saudade. Há anos que não via aquela mulher ruiva, com sardas pintadas e olhos de avelã. Era uma mulher linda, um espírito rebelde - e descaradamente livre! - que tinha recusado casar-se com ele por não suportar a ideia de qualquer tipo de sedentarismo.
Bernardo levantou-se e, apesar do frio, foi até à varanda. Também a cidade mergulhara na mesma escuridão ansiosa e assustada, envolta no silêncio áspero das horas que se alongam a rogar pela manhã. No firmamento, apenas as estrelas brincavam reluzentes sob o olhar atento da Lua que se destacava imponente. Ele fitou os céus, pensou em Ema: que poderia ela querer? Passaram-se 22 anos… Saberia, aquela ruiva estonteante de olhos de avelã, o tamanho da mágoa que deixara ancorada e calada no mais íntimo de si? O frio penetrou-lhe os ossos e Bernardo voltou a sentir o arrepio da perda, o coração a ser rasgado aos bocadinhos. Estava triste e sozinho e apenas o luar era testemunha da sensação de frustração e de vazio que se espelhava no seu rosto.
Sorveu o frio cortante daquela noite escura e voltou para a sala que continuava amornada pela obscuridade. Acendeu as velas da mesa, ateou a lenha da lareira, serviu-se de um Courvoisier e tirou – do fundo da estante, atrás dos livros de arquitectura – a caixa onde guardava os bilhetes apressados (provas irrefutáveis de um amor cuidado e acarinhado…), as declarações de amor (poesia em estado puro!), as caixinhas de fósforos dos motéis (inequívocas recordações de momentos únicos!), as longas cartas (todas a adivinhar eternidade…), o gancho do cabelo em forma de borboleta (ela usava-o no dia em que Bernardo se fixou no doce dos seus olhos e soube que seria dela para todo o sempre!) e… o anel (que seria de noivado se ela o tivesse aceitado…). Lágrimas agridoces corriam na face dorida de Bernardo ao sabor daquelas recordações.
Ema é a mulher que ele ama, é para Ema que converge o seu destino e Bernardo tinha de lhe dizer isso mesmo: que precisava dela para ser feliz!
Pousou o copo, conversou com Deus e convenceu-O de que o amor também é fé e religião.
Adormeceu!

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