Follow by Email

sexta-feira, 16 de março de 2012

Contadoras de histórias

O mundo virtual tem destas coisas, destes (des)encontros que aos dezassete anos podem parecer fantásticos mas que, do alto dos meus quarenta e quatro, se confessam algo assustadores. Hoje, pediste-me que me descrevesse fisicamente. Senti o meu escudo cair com estrondo! Senti-me estranhamente confusa, como se, de algum modo, revelar o meu físico fosse mais íntimo do que revelar a minha alma que já era tão tua!... Fingi não perceber, tentei mudar o rumo da nossa conversa – que é sempre tão agradável, tão envolvente, tão inebriante… porquê a pergunta? Porquê o pedido? Que ideia a tua! – Insististe. Não sabia como responder, não encontrava o que dizer, não estava a conseguir encontrar uma saída – airosa ou não!

A ligação “caiu”… Desculpa-me, sim?

                Vejo-me agora frente ao espelho, de corpo inteiro, despida de roupas mas vestida de mim. Aquela sou eu. Há mais de 40 anos que sou eu! E cada bocadinho daquele corpo de mulher tem história, tem memória, faz parte de uma construção que não é só física, não poderia ser… Os cabelos negros e muito longos que foram afagados pela minha mãe, que deslizaram entre os dedos dos homens que me amaram. Os olhos castanhos, quentes e  sorridentes, que mantêm o brilho da alegria, que descobrem, que procuram, mas que também falam, também contam histórias do coração e também choram de desgosto, de alegria e de emoção. Os lábios bem desenhados que já beijaram arrebatadoramente, que já serenaram corações, que já curaram feridas. O nariz… esse merecia uma intervenção plástica! Olhos e lábios rasgam-se num sorriso ao som desse pensamento. Deixemos o nariz assim!  Pois, e já agora, talvez possamos dar outras desculpas ao corpo que deixou de ser escultural mas que, nem por isso, deixou de ser o corpo que conta a história da minha vida, e que conta a história de outras vidas, as vidas que o meu corpo gerou. E eu descubro que gosto dele assim, contador de histórias.

                E eis que reparo nas mãos! Fico, então, com a certeza de que amanhã, no nosso encontro virtual, saberei exactamente como descrever-me! Falar-te-ei das minhas mãos, da beleza e do encanto das minhas mãos: não de uma beleza física, mas de concretização. Dir-te-ei que as minhas mãos se esconderam dentro das mãos da minha mãe e da minha avó quando o medo me apertava o coração. Que construíram castelos de sonho, rabiscaram futuros, rasgaram ondas, apertaram outras mãos, desbravaram caminhos e seguraram troféus. Acrescentarei que as minhas mãos também amaram corpos de homens, traçaram destinos, brigaram, segredaram, gargalharam, fortaleceram amizades, escreveram agruras, dissertaram sobre a felicidade e acarinharam e orientaram filhos na caminhada da vida. Contar-te-ei que as minhas mãos já rezaram muito! Explicar-te-ei que as minhas mãos também contam a minha história e que eu gosto delas assim, contadoras de histórias…

Sem comentários:

Enviar um comentário