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quinta-feira, 8 de março de 2012

Aquela fita de azul e de seda!




Terça-feira. Mais uma! Estávamos no café mais cosmopolita da cidade – aquele onde todas as alminhas se juntam no final do dia de trabalho (não sei se para tomar café, se para ver os outros ou se para ser visto…). Imagino que teria um leve sorriso no olhar enquanto vagueava por estes pensamentos, bruscamente interrompidos por Mário: “- Diz-me lá, Leonor, que cinco objectos escolherias para te representar?” O meu trejeito denunciou a surpresa consequente de tão descabida pergunta. Mas ele insistiu: “- Vá lá, Leonor, cinco objectos.” Achei que se tinha passado! Estávamos há alguns bons 20 minutos a olhar para o vazio, sem assunto. Apenas o fumo das nossas chávenas de chocolate quente se misturava numa dança envolvente ao som do frio cortante daquele fim de tarde de Inverno. “- Deixa-me sossegada, Mário!”. Ele segurou a sua chávena – acho que para aquecer as mãos, porque não bebeu – e recostou-se em silêncio.

Raios! Podia ter perguntado o que é que eu faria com um prémio de lotaria, do euromilhões, mas cinco objectos?! Deve ser um dos seus joguinhos intelectuais da psicanálise. Não há paciência! Continuo a observar os figurantes da esplanada daquela terça-feira gélida por entre o véu que se forma sobre o meu chocolate fumegante. Reparo na menina do laço. Não! reparo no laço do cabelo da menina. Podia ter nomeado o meu carro: representa a minha independência. Ah! Ou meu telemóvel - pela mesma razão. Mas depois teria de aturar o Mário a dissertar sobre a demente dependência dos telemóveis. A minha aliança de casamento: representa os meus sentimentos, as minhas escolhas… o empregado dirige-se à mesa para saber se queremos mais alguma coisa. O sinal de Mário indica que estamos bem assim. Ele insistiria na sua insistente insistência de desvalorizar os símbolos matrimoniais. Deve ser porque é maricas… ou é só muito moderno e eu não o compreendo! Suspiro de enfado de terça-feira! Talvez a caneta, a minha Montblanc. Somos inseparáveis e já vivemos tanto, tanto juntas. O meu chocolate arrefeceu. Mário continua recostado. Não nos falamos. Reparo na menina do laço, ou no laço do cabelo da menina. Lembro-me da minha fita azul, agora guardada na moldura por cima da cómoda. Lembro-me do dia em que a minha avó – que vaidosa que ela estava! – deu o laço, com a fita azul, nos meus cabelos de menina loura e disse que não havia no mundo menina mais bonita! Foi um momento de amor único. E aquela fita de azul e de seda que ainda guarda o brilho do sorriso dela representa a pureza, o amor e a memória que é contada a todos quantos perguntam porque guardo na moldura da cómoda aquela fita de seda azul…

- “Vou embora, Leonor.”
- “Está bem, Mário. Até amanhã!”

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