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sexta-feira, 15 de junho de 2012

Um café e um amor


‘Quero um café e um amor, quentes, por favor.’ – li, há dias, esta frase num post qualquer e decidi ensaiá-la no simpático barzinho lá da rua, onde paro pela tarde antes de recolher a casa.

D. Antónia - figura pesada que, há mais de 20 anos, cria raízes atrás do balcão de madeira - fixou-me o olhar: não sei se zombeteiro, se apiedado; esboçou um meio sorriso e voltou costas para tirar a minha bica: ‘Aqui está o cafezinho, menina. O amor vem já.’ Ri-me com vontade: ‘Então ouviu, D. Antónia?’; ‘Ouvi, ouvi, menina. Sabe? Com o amor é assim mesmo. Às vezes, atrasam-se na entrega, mas chega sempre.’

O meu sorriso franco fechou-se de va ga ri nho, e os meus olhos procuraram a chávena – ainda cheia de café fumegante; desviaram-se para o pacote de açúcar (que ela sabe que eu não vou consumir mas que, teimosamente, insiste em pôr no pires todos os dias); os meus dedos brincaram com a pequena colher que revela o desgaste das muitas lavagens, devido ao uso (ou ao desuso). Senti o coração apertado e havia um ‘não-sei-quê’ que me impedia de enfrentar os olhos pachorrentos de D. Antónia. Os meus fizeram berço a lágrimas (de saudade? de pena da coitadinha que, naquele momento, habitava em mim?) e as minhas pernas enrijeceram-se na hesitação: acabar o café ou sair dali a correr.  Senti o braço determinado da D. Antónia que me envolvia e me empurrava para uma mesinha de esquina. Olhei para ela (acho que nunca a tinha visto do lado de cá do balcão: não a imaginava tão pequena), deixei que as lágrimas caíssem e sentei-me, em frente àquela senhora que eu conhecia (?) há tantos, tantos anos.

Segurou as minhas mãos entre as suas e deixou que o silêncio apaziguasse a minha alma e secasse a saudade que me escorria dos olhos. Só depois falou. Lembrava-se de mim (desde os meus quase 17 anos) e lembrava-se do Manel: do nosso namoro, do nosso noivado e do dia em que desapareceu - para sempre - da minha vida. Lembrava-se do brilho dos meus olhos e do cantarolar da minha voz sorridente – até então. Lamentava a tristeza e a tormenta em que, agora, todos os dias me via; achava – muito convictamente – que eu tinha baixado os braços, trancado a porta e deixado o amor lá fora.

Não me pediu explicações, nem, tão-pouco, fez pausas que me permitissem uma qualquer argumentação. Possuidora de uma sensibilidade inteligente, D. Antónia sabia o segredo das palavras e conquistou a minha atenção e o meu coração. Contou-me histórias fantásticas – da vida trivial, de desencontros, de amores ímpares e de desilusões avassaladoras – como se me mostrasse a sua colecção privada de cromos de experiências e afectos. 

O senhor Joaquim já há muito havia fechado a porta e empilhado as cadeiras, a menina Carla há muito havia gritado: ‘Até amanhã, D. Antónia!’; e a noite já ia alta quando me disse: ‘Vá menina, vamos descansar - que amanhã também é dia.’ Dei-lhe um abraço demorado e sentido e, no meio de um ‘obrigada’, colei-lhe um beijo na face. Humedeceram-se-lhe os olhos.

Dobrei a esquina e entrei em casa. Deitei-me com os gestos simples e com as palavras sábias e certeiras da D. Antónia. O meu mundo estava bem mais descomplicado quando adormeci.  A partir de então, passei a tomar o meu café com a velha senhora e a beber das suas palavras e dos seus ensinamentos. Destranquei a porta – não fosse o amor querer entrar.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Não era esta a sua hora


Sentou-se na mesa redonda da sala – a que ficava mais perto da janela, sobre o mar – e olhou para a folha de papel: limpa, branca, imaculada e inocente (poder-se-ia chamar inocente a uma folha de papel?). Tremiam-se-lhe as mãos quando pegou na caneta de tinta azul; largou-a de imediato, como se o objecto fosse feito de um fogo acre e redutor, e enfiou os dedos na espessa cabeleira, em jeito desesperado de quem só tem tudo a perder. Fixou o olhar no horizonte – do modo que fazia todas as manhãs, antes de iniciar as suas prazenteiras horas de escrita – mas não encontrou a inspiração que, há anos, o distinguia como grande escritor da actualidade.
Procurava as palavras: as mais acertadas. Haveria palavras certas e honestas para anunciar e justificar uma morte? Relutante, mirou a folha que permanecia – imóvel – à sua frente. Estava prestes a desvirginá-la mas, desta vez, sabia que não tiraria desse acto qualquer prazer. As palavras continuavam a atropelar-se na sua mente, chocavam umas com as outras – sem piedade, sem sentido, sem alma e já sem vida. Voltou a segurar a caneta; a mão ainda tremia e as lágrimas - roladas e espessas - que agora desciam as fendas profundas do seu rosto sofrido, pareciam querer acalmar o fogo que o consumia.
Forçou-se a cumprir a missão que o levara a sentar-se ali: escreveu: “Querida Eva, se estiveres a ler estas linhas é sinal de que já não estou convosco. Não posso pedir-te que me…”. Foi, subitamente, atingido por uma dor insuportável que lhe tolhia os movimentos, como se o seu corpo protestasse e se recusasse a aceitar o que a sua mente estava prestes a ditar para o papel. Num gesto de repulsa, voltou a atirar a caneta de tinta azul para a mesa. Puxou as pernas – para cima da cadeira que também era branca - e abraçou-as com força, na ilusão instintiva de que a posição, quase fetal, amenizaria aquela dor. Soltou um grito rouco e agonizante e caiu – sem forças – num choro compulsivo que já não lavava a alma.
Ouviu-se o som da chave a virar na fechadura (há quanto tempo estaria naquela letargia?); Eva entrava com o seu sorriso habitual e com a leveza de quem sabe que as crises são cíclicas e que as dívidas acabam por pagar-se; não reparou no seu ar de desespero quando lhe deu um beijo e perguntou: “Ainda trabalhas, meu amor?”; Clarinha correu para ele e - já dentro de um abraço – gritou: “Papá! Papá!”.
Raúl amarfanhou a folha branca que o ameaçava de morte: adiou um projecto.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Porque hoje o tempo dói


Um pesadelo ter de sair - mais uma vez - do morno dos lençóis a meio da noite. Há noites assim, que se deitam angustiadas, magoadas ou sofridas. Deixam de ser noites e passam a ser outra coisa qualquer; derramam lágrimas, deambulam pela casa, (des)arrumam prateleiras e gavetas à procura de respostas e de soluções onde elas não estão. São noites intermináveis, de silêncios tristes e de buscas interiores solitárias, de esperas atormentadas pelo despontar da aurora.

E eis que o dia nasceu indefinido, incerto, inseguro. O sol teimou em não aparecer e o ar estava algo entre o abafado e o sufocante. O exército de pássaros, que costuma passar revista às manhãs, parecia ter batido em retirada e os seixos rolados sossegavam tímidos e arrepiados na praia, como se não se quisessem molhar naquele mar de azul zinco estagnado. Surgem os primeiros transeuntes: eles bafejando cigarros, com cabelos abrilhantados por uma graxa qualquer, mãos e rostos marcados por vidas de labuta, pés que se arrastam pesados num chão gasto e sujo com trilhos marcados e com direcção; elas afogueadas, apressadas – porque se faz tarde e a vida não espera – entre um autocarro e outro, carregando sacos em mãos grossas com vernizes descascados, envergando saias pretas ( bem abaixo dos joelhos) que atrapalham os passos cansados e doídos do corre-corre infernal dos dias que se atropelam. E há o barco que atraca no cais – virá da pesca? Não se vê peixe. Só rostos fechados, enrugados e escurecidos pelo sol, silenciados pelo cansaço das noites que doem no corpo e na alma das gentes que trazem o mar no olhar. Mais acima, no mercado municipal, arrastam-se corpos que, pachorrenta e vagarosamente, carregam cestos de frutas e legumes frescos, coloridos, vistosos, que contrastam com a lassidão deste dia que dói. Mais uma vez as mulheres em azáfama, cabelos ainda molhados, as faces rosadas, a preparar as suas bancadas com apreço; os homens com olhos cansados e raiados de sangue, denunciando noites curtas com vinho, bagaços e cigarros baratos. Os mesmos cigarros, agora pendurados nos lábios arroxeados que soltam fumo espesso para as flores viçosas que as mãos calejadas arranjam em ramos: é blasfémia! A cidade começa a encher-se de carros, de barulho – muito barulho, um barulho que dói -, condutores pouco tolerantes e muito apressados; começa a encher-se de gente – gente anónima, que parece transportar em si histórias carregadas de sofrimento; começa a encher-se de crianças puxadas pelas mãos das mães – mochilas às costas, batas engomadas, cabelos penteados e alinhados, a esfregar os olhos para afugentar o sono que ainda mora por ali; começa a encher-se de gente que, sem sequer o ver, se desvia cuidadosamente do mendigo que dorme na rua, sujo e a cheirar mal.

Ai, eu quero sair daqui! Não posso, não aguento, não quero estar aqui. Dói-me a alma, dói-me o corpo, dói-me o dia, dói-me o tempo! Vou embora!

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Discurso mais que directo



- Meninos, venham para a mesa! O jantar está pronto.
- Vou já, mãe. Estou só a acabar este jogo.
- Vá, Ricardo, acabas depois. Agora vem comer.
- O que é o jantar, mãe?
- É o resto do assado de ontem e não quero queixumes, Teresa! Sabes que o pai tem andado cansado, não arranjes discussões, por favor! Luís, vens jantar?
- Não tenho fome!
- Por favor, Luís, senta-te connosco…
- E sento-me para quê? Eu disse que não tenho fome!
- Mas tens de comer, tens de alimentar-te e… os miúdos…
- Os miúdos, o quê? O que é que têm os miúdos? Os miúdos não são desculpa para tudo, Clarice! Estou farto disto! A Teresa tem 17 anos, está uma mulher! O Ricardo, 15! Por Deus! Já não são miúdos. Já têm boa idade para saber que a vida também é feita de instabilidades, rupturas, decepções… eles cresceram Clarice, não precisam deste tipo de protecção. E tu, mulher, que ridícula! Escudas-te nos miúdos para preservares o que já não existe… não achas que chega?
- Não fales comigo assim… já to pedi.
- E falo como, Clarice? Como é que se fala com alguém que não nos ouve? Como é que se fala com alguém que finge não perceber que já não existe nada para além da rotina e do tédio? Que insiste numa situação deplorável de coexistência! Como é que eu falo com alguém que já não me diz nada? Já não aguento isto! Não percebes que já não tolero isto?
- Luís, eu amo-te tanto, Luís… não suportaria…
- Qual não suportarias? Eu é que já não suporto estar aqui! Há dois dias que tenho as malas no carro, Clarice. Estás sempre com desculpas para evitar o inevitável… estou farto das tuas lamechices! Estou farto!
- Por favor… já to pedi. Senta-te comigo! Vamos conversar?
- Qual conversar? Não há nada para conversar: estou FAR - TO! Vou sair… vou-me embora! Podes secar as lágrimas, Clarice. Não me vou comover… tenho de ir!
- Por favor, Luís… lembra-te de nós. Lembra-te de tudo o que fomos…  sempre tão cúmplices, tão próximos, amámo-nos tanto! Tão companheiros, tão amigos, tão amantes… sonhámos juntos, planeámos juntos, traçámos juntos as linhas do nosso destino e conjugámos juntos o tempo presente e o tempo futuro.
- Chega, Clarice.
- Olha para tudo o que construímos, meu amor… olha para os nossos filhos, vê os nossos sonhos aqui, materializados. Não vires as costas à vida que sonhámos para nós… ainda não dançámos todas as músicas, Luís… ainda não navegámos todos os mares, ainda não cruzámos todos os céus… nós prometemos, lembras-te? Dissemos que quando fossemos bem velhinhos ainda iríamos contar estrelas, de mãos dadas… eu quero contá-las contigo. Lembra-te do nosso abraço, Luís… lembra-te a que sabe o nosso abraço. Procura, meu amor! Eu sei que se procurares no teu coração… eu ainda moro aí!

sábado, 5 de maio de 2012

E as estrelas, mãe? Onde estão as estrelas?


- Será que as estrelas morreram, mãe?
- Que disparate, filho. As estrelas não morrem.
- Então, onde foram? Fugiram, mamã? Estão escondidas? Acha que elas estão com medo do escuro?
- Oh filho!...  
Será que estou a sentir a impaciência a apoderar-se de mim? Como é que as crianças conseguem perguntar tantas coisas ao mesmo tempo? Vou à janela, tentar perceber o que raio se passou com as estrelas! Onde é que elas se meteram? Tenho tanta coisa ainda para fazer: dar um jeito na cozinha – que ficou “de pantanas” após o jantar; preparar os lanches para os miúdos levarem amanhã para a escola; organizar as máquinas de lavar roupa e louça – para só ligar às 23h, na esperança de poupar qualquer coisa com o contador bi-horário; depois, verificar as mochilas para não faltar nenhum livro, nenhum lápis ou borracha; aprontar as roupas para o dia seguinte – sem esquecer o saco separado para o ballet: as sapatilhas, as redes, agulhas e ganchos para o cabelo, o maillot e as fitas; e o saco para o futebol: equipamento completo, chuteiras e a braçadeira de capitão que usará orgulhosamente esta semana pelo bom desempenho no jogo de sábado!
- Vê, mamã? Não estão lá, eu tinha dito! – e abraça-se à minha perna com toda a força, à procura de abrigo e protecção para a dor que, subitamente, assaltou aquele coraçãozinho.
Afago-lhe os caracóis louros e sorrio… seco-lhe as lágrimas roliças e aconchego-o no meu colo. (Isto das estrelas é um assunto sério! Quase à escala do nosso amor.) Empurramos a chaise-longue para bem perto da janela da sala de estar e fitamos o céu nublado de Inverno.
- Sabes o que acho, meu pequenino? Que as tuas estrelinhas já foram dormir. Devíamos fazer o mesmo, vá, a mãe conta-te uma história…
- Não, quero ficar aqui, quero ver se aparecem! Por favor, mamã…
Quem é que resiste a um “pu favô” destes? Fixo, de novo, o céu vazio de luz, enquanto aperto o meu menino contra o peito. Já me está a apetecer zangar com as estrelas por elas não aparecerem… Tenho ainda tanto para fazer: ainda me espera a saga da lavagem dos dentes; os momentos de leitura – no quarto de um e de outro – que se alongam sempre com perguntas e com mais porquês e com tantas sugestões de final de história quanto o sono – ou a falta dele - permite. E quando a casa estiver, finalmente, mergulhada no silêncio, chegará a hora de organizar as minhas coisas e preparar mais um dia: sentar-me no cantinho que me serve de escritório e responder aos e-mails que ainda aguardam o meu parecer; ler as notícias do jornal de hoje – que, entretanto, perderam a actualidade; apontar os últimos gastos, regularizar contas (sim! Porque alguém tem de fazer a economia doméstica!), planear os próximos menus, consultar…
- Porque é que o mano está aqui, mãe? Não vai dormir?
- Vai já, princesa, está só à espera que apareçam as estrelas, para poder dormir descansado.
- Posso ficar um bocadinho também?
E enrosca-se nos meus braços com um suspiro profundo, daqueles que parecem dizer que o seu lugar é ali. E eu volto a sorrir, com os dois aconchegados. O cheirinho deles, o calor que emanam aqueles ‘bocadinhos de gente’ e o efeito que têm no meu sentir de mãe, transportam o meu pensamento para a analogia quase perfeita que fez, há dias, um amigo ao dizer que, quando os nossos filhos nascem, o nosso coração passa a andar fora do corpo. Passeio-me por memórias, não muito longínquas, de dias tão felizes que apagaram as noites mal dormidas, as fraldas, as asmas, as febres, as viroses e afins. Recuo ao princípio quase umbilical em que eu própria, sonhadora, olhava as estrelas e nelas projectava toda a poesia de sentimentos que já viviam dentro de mim e dentro da vida que havia em mim.
E sabe bem trilhar as recordações que fazem parte deste crescer bordado de ensinamentos e afectos, sustentado num amor que é sempre conjugado no indomável e no incondicional.  
E sabe bem tê-los aqui, comigo e em mim… e é minha missão fazê-los felizes, mesmo que para isso tenha de adiar a logística doméstica e familiar, e tenha de sentar-me aqui… à espera de estrelas que - eu sei - jamais morrerão!

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Já não tenho outro chão


Hoje é sábado. Disseram-me que é sábado. Tentei espreitar a data do jornal que estava em cima da mesa – só para certificar-me -, mas a vista já não alcança. São os óculos que reclamam reforma! Mas já não vale a pena!... Já não preciso de ler o jornal: um gesto repetido durante décadas e décadas, diariamente, após o pequeno-almoço, enquanto a minha Anita acabava de preparar os miúdos para eu levá-los à escola. Como era bonita - e paciente e dócil -, a minha Anita! A paciência era, sem dúvida, a sua maior virtude. E aqueles dois reguilas em casa… cirandavam e barafustavam e, às vezes, faziam tanto barulho que parecia que tínhamos uma equipa inteira de futebol dentro de quatro paredes.
Hoje já não preciso deles (dos óculos, claro está!). Já não leio o jornal. Ainda o folheio, é verdade. Acho que é o hábito; é pelo prazer de sentir o papel na mão. Trabalhei com papel a vida toda: fui contabilista (e sem essas máquinas modernas que sei que agora usam. Usávamos a cabeça e a inteligência que Deus nos deu!). O meu filho mais novo seguiu-me as pegadas; estabeleceu-se, está encaminhado! Muito orgulhosa ficou a minha Anita quando se formou o mais velho: um filho advogado! Era o senhor doutor lá do bairro. Chegou a apoquentar-se com o nosso caçula. Ah! mas para quê? O pequeno fez-se à vida e hoje está bem.
Será que é sábado, hoje? Penso que sim. Percebo pela azáfama - na sala de refeições – que dilui a pacatez dos outros dias, sempre mais cinzentos, o arrastar preguiçoso e cansado dos pés dos velhinhos (agora meus companheiros neste final de viagem) e o ar enfadado da D. Alzira e da menina Justina. Ao sábado e ao domingo é sempre diferente: a comida parece melhorada; há mais paciência nos gestos da D. Alzira e até a menina Justina já não diz: “Olhe só a porcaria que está a fazer, senhor Lopes. Abra a boca!”. Lembra, antes, ao pobre do Lopes, que vai receber a visita da família e que eles hão-de querer vê-lo fresquinho.
Estou a mudar de sítio, a minha cadeira é agora empurrada por alguém que me leva para a sala de convívio. Estou demasiado velho e demasiado preguiçoso para voltar-me e saber quem me conduz. Sei que vão deixar-me ali, junto à janela, para que possa ver o mar que estende o azul lá em baixo. E o mar invade-me as memórias de dias tão felizes: dias com cheiro a Anita, e a juventude, e a amigos, e a filhos pequenos… será que vêm ver-me hoje? A minha Anita não deveria ter partido antes de mim. Não é justo! Quem é que olha agora pelos miúdos? Eu já não tenho força e… estou aqui empatado, já não saio daqui, já não tenho outro chão. Será que vêm?
Sei que é sábado. Está a chegar a D. Matilde, ela só vem aos sábados. Vem ver a tia – que está mouca! Completamente surda, coitada!… Passa por mim e pergunta, amavelmente: “Como está hoje o senhor? Está um lindo dia lá fora!”. Olho para a D. Matilde, não digo nada, não esboço um sorriso – até os músculos estão preguiçosos! Sinto o perfume dela que impregna agora o ar com o adocicado das flores e sei que… oh! Chegou o filho do Sebastião, e traz os filhos pela mão. Que contente vai ficar o Sebastião. Já há semanas que não vinham visitá-lo! Será que eles vêm? Têm sempre tanto trabalho… são jovens muito ocupados e com muita responsabilidade, os meus pequenos. Dois bons rapazes, isso são!
Claro que é sábado! O filho da D. Marcolina também só vem aos sábados. Está sentado aqui à beira, com ar taciturno, mãos nervosas e irrequietas. Fala de crise e das falências que andam lá fora a assustar empresas e negócios, das lojas afamadas com papel pardo a substituir as cores vivas que, nas montras, marcavam as estações, dos políticos – “uns corruptos mentirosos que hão-de pagá-las! Sim, porque Deus não dorme” -, do desemprego que devasta famílias, fala também da crise de valores e das escolas “que já não são o que eram” e fala, fala que não se cala. E eu gosto disto de fingir que não ouço. Levam-me a sério! Não me maço, não tenho de responder ao que me perguntam e fico a saber de coisas que de outra maneira não saberia. Às vezes pode ser muito divertido!
Hoje é sábado, é mais um sábado… será que eles vêm? A menina Justina passa por mim, afaga-me o braço: “Então, hoje não teve visitas? Vai ver que amanhã aparecem.” Falta-me o ar, aperta-se-me o peito. Não quero chorar, que os homens não choram! A cadeira de rodas serpenteia os corredores. Está na hora de nos prepararmos para o jantar… sinto as faces molhadas. Mas que raio de óculos, já não valem nada, estragam-me a vista! Não, não estou a chorar, que os homens não choram! Hoje é sábado, mas eles não vieram.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O acordar de mais um dia...



O Sol ainda só está espreitando o dia que desperta bem devagarinho. Ouço o chilrear dos pássaros que espreguiçam esta manhã primaveril e vejo o mar que ainda dorme sereno, embalado por esta ilha que é mãe. Sigo o saltitar do melro-preto, ali na relva, por entre as árvores: vai anunciando o dia que nasce, e fá-lo com estridente alegria. Sinto a brisa tímida a acariciar-me os ombros nus. Enrosco-me no meu próprio abraço: sinto-me só!
Gostava que estivesses aqui. Gostava de poder desejar-te um bom dia com cheiro a acordar, ou a espuma da barba, ou a café com leite acabado de fazer. Queria dar-te um abraço, agora, já, neste exacto momento! Queria ficar lá, dentro desse abraço, saborear o teu sabor, o teu aconchego, a tua paz.
Fecho a janela devagar, deixo o dia que acorda lá fora e volto-me para a casa despida: de cheiros, de sabores, de abraços, de ti… sorrio para a moldura da cómoda que me devolve as gargalhadas de dias felizes. Ajeito os lençóis -demasiado brancos e frios- desta cama vazia. Vagueio descalça pelo quarto, esperando que o frio do chão que eu piso me arranque desta lassidão. Olho o espelho nos olhos, firmemente, mas não vislumbro respostas. Deixo que a água morna me percorra o corpo e me lave a alma e as lágrimas que não consigo conter.
Gostava que estivesses aqui. Gostava de poder contar-te os meus planos para o dia que está a nascer do outro lado da janela. Queria ouvir a tua voz, saber de ti… ver o teu sorriso malandro quando, ao apertares o último botão da tua camisa, perguntas: “Estou bem assim?”. Queria voltar a ver-te deliciado a comer torradas com mel, enquanto ouves as notícias matinais com o teu ar mais sisudo. Queria ter-te aqui comigo, agora…
Faz-se tarde, apresso o passo, tenho de ir. Vou encontrar-me com o dia que nasceu lá fora e deixar suspensos aqui – nesta casa vazia de ti – os retalhos da nossa vida, as memórias, os segredos, as ternuras, os sorrisos. Vou reaprender, a cada dia que nasce, a cada rua que cruzo, a cada esquina que dobro, a cada pedra que piso… vou reaprender a viver, desta vez sem ti. É tarde! Não posso chorar. Apresso o passo. Tenho de ir.
Ai como eu gostava que estivesses aqui!!! Às vezes, acho que Deus se enganou! A morte é injusta! Não se nos arrancam as pessoas assim! Não assim… Seco as lágrimas, enxugo a alma e tento não levar esta dor comigo. Vou deixar a dor à porta. A porta… olho para a porta e quero ver-te: sorriso aberto, olhos doces e porte elegante. Quero sentir-te, naquele segundo que antecede a partida: um passo atrás, mais um abraço, um beijo quente e um “amo-te tudo!”.  Quero ouvir-te quando, a caminho do dia que te aguardava lá fora, mais uma vez me olhaste e, apontando para o peito, me afiançaste: “Levo-te aqui, meu amor!”.
Não quero caminhar sozinha…
Gostava que estivesses aqui!...

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Um elogio à Amizade!


Levava na “pasta da escola” os cadernos brancos, com cheiro a novo e a novidade, sedentos de letras, de magia, de aprendizagem; os livros, esmeradamente forrados – uns, orgulhosamente novinhos, outros, resignadamente herdados do irmão mais velho – onde as letras, os números e as cores bailavam, brincavam e sorriam numa promessa de fascinação e sabedoria; os lápis de cor e as canetas de feltro que traçariam – com mais ou menos jeito – rabiscos felizes de quem, com nove anos, tem o mundo nas mãos e acredita que há mesmo um pote (de ouro, ou de felicidade?) no final do arco-íris; as esferográficas, o lápis bem afiado, a borracha verde – ainda muito limpinha! – instrumentos que já ocupavam posição de destaque na vida daquela menina, a caminho da escola, numa manhã de Outubro, há muitos, muitos anos atrás.

Levava no cabelo os dourados do sol de Verão e o cheiro a mar e a outras gargalhadas; nos olhos castanhos brilhantes, a agitação e a inquietude próprias da curiosidade e da sede do reencontro; nos lábios, o sorriso nervoso de quem tem quase medo de dizer (a plenos pulmões) que é tão feliz; nas mãos transportava as certezas de que aquele ano – que importante que era, então, a 4ª classe! – só poderia ser bom porque seria encarado com empenho e afinco (havia um avô para deixar feliz e orgulhoso!); no coração levava todos os sonhos pequeninos, de quem é pequenino também, levava todos os sorrisos que abraçavam esperanças, e levava a ansiedade da novidade.

Foi nesse ano que a conheci. Era a nossa “nova coleguinha”, como anunciara a D. Conceição: uma senhora corpulenta, de voz meiga e olhos doces, que embalava as letras nos textos que líamos na sala de aula e que nos afiançava que era possível viajar através da leitura e da escrita – só tínhamos de saber ouvir o nosso coração e deixar voar a nossa imaginação. Com a mesma sabedoria, já a D. Conceição nos havia falado daquela menina (que eu em breve conheceria) e nos havia alertado para valores como a amizade, o carinho e o bem-receber. No meu íntimo, sabia que havia algo, naquele futuro próximo, que prometia qualquer coisa de “para sempre!”.

E, desde então, partilhámos as cores de todos os arco-íris, os fios dourados do sol de quase todos os verões e as gotas de chuva que embebedavam a terra, estação após estação. Enquanto crianças, brincámos e soltámos fantasias no ar; com maquilhagem, bem conseguida a partir de uma mistura de papel crepe com saliva, fizemo-nos crescidas; com letras fresquinhas, acabadinhas de aprender, redigimos bilhetinhos tolos e encurtámos distâncias; com sorrisos, segredos e cumplicidades, cimentámos uma amizade que se adivinhava para a vida.

Adolescentes, partilhámos asneiradas, idades do armário, primeiros cigarros, conquistas e desgostos de amor; estudámos, valorizámo-nos e continuámos a encurtar distâncias com cartas cheias de letras embaladas em textos, como nos ensinara a D. Conceição. Chorámos juntas até à exaustão e rimos até nos doer a barriga! Acreditámos que o mundo era nosso e que tínhamos tudo para sermos felizes.

Já adultas, continuamos as melhores amigas do “para sempre!”. Já não pintamos os lábios com papel crepe vermelho nem nos deitamos na relva molhada a contar as estrelas. A vida já nos pregou algumas partidas e também já nos mostrou o seu lado mais belo. Apesar da distância, mantemos os sorrisos, os segredos e as cumplicidades. Também acontece, tantas vezes, chorarmos até à exaustão ou rirmos até nos doer a barriga! Continuamos a acreditar que a felicidade está já ali e ainda encurtamos distâncias com letras embaladas em textos, como nos ensinou a senhora de voz meiga e olhos doces há muitos, muitos anos atrás.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

A Primavera daquele mês de Agosto


 

 
Não me lembro de qualquer mês de Agosto longe daquela casinha branca plantada na colina, ali mesmo atrás do mar. Não me lembro de alguma vez ter experimentado tamanha alegria como a de, ano após ano, avistar – a partir da curva da pequena estrada onde acaba o resto do mundo – a casinha branca que a minha avó alugava ao mês. Não me lembro de momentos tão felizes como aqueles que aconteciam naqueles 31 dias de cada Agosto da minha vida. Não me lembro do meu avô, porque nunca o conheci…

A casa era pequenina, muito branca, com portadas verdes. Tinha dois quartos apenas: durante largos anos partilhei o quarto hortelã com a minha avó. O alfazema – que agora é mesmo meu! – era o quarto das visitas (onde ficavam, ocasionalmente, os meus pais). Ano após ano, os nossos dias eram preenchidos com cheiros de terra, e de mar, e de flores; com sabores doces de bolos acabados de fazer e de bolachas tenrinhas a desfazerem-se na boca; com gestos de alegria e amor puro (daqueles que só são possíveis entre pessoas que se amam assim, como eu amo aquela velhinha de cabelo feito de nuvem e de olhos doces de mel ); com palavras, com ensinamentos, com histórias… gostava, sobretudo, das histórias que envolviam o meu avô, aquele que eu nunca vi.

Conheceram-se nas férias de um Verão quente: num Julho muito longínquo. Eram almas rebeldes, livres e apaixonadas que se acreditaram gémeas. Tinham o mundo nas mãos e ainda 31 dias para pertencerem, unicamente, um ao outro. Despediram-se dos grupos de amigos veraneantes que com eles haviam iniciado viagem, passaram a curva da pequena estrada onde acaba o resto do mundo e alugaram a casinha branca plantada na colina, ali mesmo atrás do mar. Viveram a vida toda nesses poucos dias. Trocaram histórias, promessas, ternuras, planos, afagos, sonhos e sorrisos. Tal como eu e a minha avó fizemos, ao longo dos agostos dos últimos vinte e dois anos, sentavam-se no alpendre ao cair da noite e passeavam nas estrelas até que a lua escurecesse no mar.

Voltaram a casa com a promessa do Agosto seguinte. Ela continuou a alugar a casinha branca com portadas verdes, Verão após Verão. Levava sempre o coração a transbordar de saudade, os olhos doces de mel cheios de uma esperança infinita, e o sorriso, sempre presente, enfatizava a sua certeza de que a felicidade existe. Ele nunca voltou à casinha branca da colina, nunca conheceu a minha mãe, nunca me conheceu. Ela continuou a colher as flores da beira do caminho, a deixar que a maresia lhe invadisse os sentidos, a saborear cada brisa, cada raio de sol que descia sobre ela num abraço cúmplice e reconfortante. Continuou a passear nas estrelas, a ter-me por companhia, a contar-me histórias de saudade e felicidade extraordinárias. Nunca ouvi um lamento, nunca percebi uma lágrima, uma mágoa, um  queixume…

Até que hoje, nesta tarde quente de outro Agosto (agora tão distante desse primeiro), no alpendre virado para o mar onde me encontro a escrever, alguém  - de cabelo também quase nuvem, e de olhos de azul mar (espelhos dos meus, por sinal!) – se aproximou, de mãos trémulas, e perguntou: “Ainda contas estrelas, Laidinha?”. Estremeci pela surpresa. Olhei para a minha avó, com o peito cheio de tanta saudade contida, com duas bagas cristalinas que caíam desobedientes dos seus doces olhos de mel, com o sorriso de uma felicidade que ela sabia existir porque a vivera, e que ela sabia carregada de esperança quando, ainda de costas, perguntou: “Manuel?”.

quinta-feira, 29 de março de 2012

De volta para a ilha que é nossa...


 
Quando se é ilhéu, vivemos a estranha sensação de ser-se pequenino – como se não conseguíssemos crescer mais um e mais um bocadinho! Vivemos o desconforto do limite e da limitação – como se numa ilha tudo fosse finito! Vivemos num déjà-vu permanente de lugares e, sobretudo, de pessoas – encontramos as mesmas todos os dias, privamos com os mesmos círculos de amigos, cruzamo-nos com as mesmas caras nos nossos percursos…
… e isso, aborrece-nos!
Quando se é ilhéu, temos sempre o mar como pano de fundo. Não há volta a dar! Ele está sempre lá! Ora encrespado, zangado ou furioso, ora cristalino, tranquilizante ou apaziguador… ele está sempre lá! É o espelho das gentes da ilha. Umas vezes, em jeito de contemplação, sonhamos percorrê-lo, transpô-lo, desilharmo-nos! Noutras, encontramos nele a paz, embalamo-nos na sua música e aconchegamo-nos no seu azul…
…e isso, reconforta-nos!
Quando se é ilhéu, queremos sair, voar, conhecer, abarcar infinitos, palmilhar outros caminhos, cruzar outras gentes. Sorvemos a imensidão de distantes lugares, espantamo-nos com o frenesim de estranhas cidades, rendemo-nos à nossa pequenez, maravilhamo-nos com diferentes culturas, reconhecemos outras fés, surpreendemo-nos com as semelhanças, com as disparidades, com as novidades…
… e isso, deslumbra-nos!
Quando se é ilhéu, somos feitos de verde e de brisa e de sol. O mar corre-nos nas veias, bordamos de sonhos os céus e os campos de poesia. Quando se é ilhéu, os beijos sabem a sal, os cabelos cheiram a musgos, os pés calçam-se de areia e os corpos vestem-se de espuma. Quando se é ilhéu, não queremos estar longe porque fazemos parte da ilha, porque somos ilha! E esquecemo-nos da nossa pequenez, dos desconfortos, das limitações, dos déjà-vus, dos aborrecimentos, dos deslumbramentos porque queremos pertencer, queremos ser feitos de verde e de brisa e de sol!
É o que estranhamente acontece sempre que estou a caminho de casa, sempre que venho de volta para a minha ilha, onde o verde ainda é de esperança, onde o céu é mais azul e onde o mar é o meu espelho e o meu aconchego…

… e isso, deixa-me feliz!

quinta-feira, 22 de março de 2012

Ela tem sardas pintadas


 
A rádio calou a voz melodiosa de Sinatra que preenchia o silêncio daquela noite tardia; as notícias foram, abruptamente, silenciadas no televisor esquecido algures numa salinha anexa; ouviu-se um último suspiro no respirar do aquecimento central; o corpo de Bernardo estremeceu, surpreendido pelo sossego ensurdecedor que, naquele segundo, mergulhava o seu mundo na escuridão.
Fechou o jornal, tirou os óculos e recostou-se na poltrona ouvindo apenas o som preguiçoso dos ponteiros do relógio que lembravam, teimosamente, que estava a ficar muito tarde, demasiado tarde. Ema telefonara durante a manhã: estava de passagem por Portugal e sugeria um encontro. Atónito pela surpresa, sentiu o sangue a querer evadir-se do corpo, as palavras a atropelarem-se num misto de gaguez e alegria, as frases a saírem desconexas, a cabeça a latejar na tentativa de organizar o pensamento e de acalmar as memórias, que insistiam em assaltá-lo naqueles breves minutos embrulhados em eternidade, em recordação e em saudade. Há anos que não via aquela mulher ruiva, com sardas pintadas e olhos de avelã. Era uma mulher linda, um espírito rebelde - e descaradamente livre! - que tinha recusado casar-se com ele por não suportar a ideia de qualquer tipo de sedentarismo.
Bernardo levantou-se e, apesar do frio, foi até à varanda. Também a cidade mergulhara na mesma escuridão ansiosa e assustada, envolta no silêncio áspero das horas que se alongam a rogar pela manhã. No firmamento, apenas as estrelas brincavam reluzentes sob o olhar atento da Lua que se destacava imponente. Ele fitou os céus, pensou em Ema: que poderia ela querer? Passaram-se 22 anos… Saberia, aquela ruiva estonteante de olhos de avelã, o tamanho da mágoa que deixara ancorada e calada no mais íntimo de si? O frio penetrou-lhe os ossos e Bernardo voltou a sentir o arrepio da perda, o coração a ser rasgado aos bocadinhos. Estava triste e sozinho e apenas o luar era testemunha da sensação de frustração e de vazio que se espelhava no seu rosto.
Sorveu o frio cortante daquela noite escura e voltou para a sala que continuava amornada pela obscuridade. Acendeu as velas da mesa, ateou a lenha da lareira, serviu-se de um Courvoisier e tirou – do fundo da estante, atrás dos livros de arquitectura – a caixa onde guardava os bilhetes apressados (provas irrefutáveis de um amor cuidado e acarinhado…), as declarações de amor (poesia em estado puro!), as caixinhas de fósforos dos motéis (inequívocas recordações de momentos únicos!), as longas cartas (todas a adivinhar eternidade…), o gancho do cabelo em forma de borboleta (ela usava-o no dia em que Bernardo se fixou no doce dos seus olhos e soube que seria dela para todo o sempre!) e… o anel (que seria de noivado se ela o tivesse aceitado…). Lágrimas agridoces corriam na face dorida de Bernardo ao sabor daquelas recordações.
Ema é a mulher que ele ama, é para Ema que converge o seu destino e Bernardo tinha de lhe dizer isso mesmo: que precisava dela para ser feliz!
Pousou o copo, conversou com Deus e convenceu-O de que o amor também é fé e religião.
Adormeceu!

sexta-feira, 16 de março de 2012

Contadoras de histórias

O mundo virtual tem destas coisas, destes (des)encontros que aos dezassete anos podem parecer fantásticos mas que, do alto dos meus quarenta e quatro, se confessam algo assustadores. Hoje, pediste-me que me descrevesse fisicamente. Senti o meu escudo cair com estrondo! Senti-me estranhamente confusa, como se, de algum modo, revelar o meu físico fosse mais íntimo do que revelar a minha alma que já era tão tua!... Fingi não perceber, tentei mudar o rumo da nossa conversa – que é sempre tão agradável, tão envolvente, tão inebriante… porquê a pergunta? Porquê o pedido? Que ideia a tua! – Insististe. Não sabia como responder, não encontrava o que dizer, não estava a conseguir encontrar uma saída – airosa ou não!

A ligação “caiu”… Desculpa-me, sim?

                Vejo-me agora frente ao espelho, de corpo inteiro, despida de roupas mas vestida de mim. Aquela sou eu. Há mais de 40 anos que sou eu! E cada bocadinho daquele corpo de mulher tem história, tem memória, faz parte de uma construção que não é só física, não poderia ser… Os cabelos negros e muito longos que foram afagados pela minha mãe, que deslizaram entre os dedos dos homens que me amaram. Os olhos castanhos, quentes e  sorridentes, que mantêm o brilho da alegria, que descobrem, que procuram, mas que também falam, também contam histórias do coração e também choram de desgosto, de alegria e de emoção. Os lábios bem desenhados que já beijaram arrebatadoramente, que já serenaram corações, que já curaram feridas. O nariz… esse merecia uma intervenção plástica! Olhos e lábios rasgam-se num sorriso ao som desse pensamento. Deixemos o nariz assim!  Pois, e já agora, talvez possamos dar outras desculpas ao corpo que deixou de ser escultural mas que, nem por isso, deixou de ser o corpo que conta a história da minha vida, e que conta a história de outras vidas, as vidas que o meu corpo gerou. E eu descubro que gosto dele assim, contador de histórias.

                E eis que reparo nas mãos! Fico, então, com a certeza de que amanhã, no nosso encontro virtual, saberei exactamente como descrever-me! Falar-te-ei das minhas mãos, da beleza e do encanto das minhas mãos: não de uma beleza física, mas de concretização. Dir-te-ei que as minhas mãos se esconderam dentro das mãos da minha mãe e da minha avó quando o medo me apertava o coração. Que construíram castelos de sonho, rabiscaram futuros, rasgaram ondas, apertaram outras mãos, desbravaram caminhos e seguraram troféus. Acrescentarei que as minhas mãos também amaram corpos de homens, traçaram destinos, brigaram, segredaram, gargalharam, fortaleceram amizades, escreveram agruras, dissertaram sobre a felicidade e acarinharam e orientaram filhos na caminhada da vida. Contar-te-ei que as minhas mãos já rezaram muito! Explicar-te-ei que as minhas mãos também contam a minha história e que eu gosto delas assim, contadoras de histórias…

quinta-feira, 8 de março de 2012

Aquela fita de azul e de seda!




Terça-feira. Mais uma! Estávamos no café mais cosmopolita da cidade – aquele onde todas as alminhas se juntam no final do dia de trabalho (não sei se para tomar café, se para ver os outros ou se para ser visto…). Imagino que teria um leve sorriso no olhar enquanto vagueava por estes pensamentos, bruscamente interrompidos por Mário: “- Diz-me lá, Leonor, que cinco objectos escolherias para te representar?” O meu trejeito denunciou a surpresa consequente de tão descabida pergunta. Mas ele insistiu: “- Vá lá, Leonor, cinco objectos.” Achei que se tinha passado! Estávamos há alguns bons 20 minutos a olhar para o vazio, sem assunto. Apenas o fumo das nossas chávenas de chocolate quente se misturava numa dança envolvente ao som do frio cortante daquele fim de tarde de Inverno. “- Deixa-me sossegada, Mário!”. Ele segurou a sua chávena – acho que para aquecer as mãos, porque não bebeu – e recostou-se em silêncio.

Raios! Podia ter perguntado o que é que eu faria com um prémio de lotaria, do euromilhões, mas cinco objectos?! Deve ser um dos seus joguinhos intelectuais da psicanálise. Não há paciência! Continuo a observar os figurantes da esplanada daquela terça-feira gélida por entre o véu que se forma sobre o meu chocolate fumegante. Reparo na menina do laço. Não! reparo no laço do cabelo da menina. Podia ter nomeado o meu carro: representa a minha independência. Ah! Ou meu telemóvel - pela mesma razão. Mas depois teria de aturar o Mário a dissertar sobre a demente dependência dos telemóveis. A minha aliança de casamento: representa os meus sentimentos, as minhas escolhas… o empregado dirige-se à mesa para saber se queremos mais alguma coisa. O sinal de Mário indica que estamos bem assim. Ele insistiria na sua insistente insistência de desvalorizar os símbolos matrimoniais. Deve ser porque é maricas… ou é só muito moderno e eu não o compreendo! Suspiro de enfado de terça-feira! Talvez a caneta, a minha Montblanc. Somos inseparáveis e já vivemos tanto, tanto juntas. O meu chocolate arrefeceu. Mário continua recostado. Não nos falamos. Reparo na menina do laço, ou no laço do cabelo da menina. Lembro-me da minha fita azul, agora guardada na moldura por cima da cómoda. Lembro-me do dia em que a minha avó – que vaidosa que ela estava! – deu o laço, com a fita azul, nos meus cabelos de menina loura e disse que não havia no mundo menina mais bonita! Foi um momento de amor único. E aquela fita de azul e de seda que ainda guarda o brilho do sorriso dela representa a pureza, o amor e a memória que é contada a todos quantos perguntam porque guardo na moldura da cómoda aquela fita de seda azul…

- “Vou embora, Leonor.”
- “Está bem, Mário. Até amanhã!”

quinta-feira, 1 de março de 2012

Sinopse do livro que eu não escrevi...



Singular! Assim o descreviam todos aqueles que com ele se cruzavam. Um bom menino! Era o que dizia a sua mãe, sempre orgulhosa e protectora, nele projectando todos os sucessos e todas as esperanças. Um bon-vivant! Era assim conhecido entre os amigos de faculdade, tantas vezes traídos pelo ciúme da vida folgada e despreocupada que levava, da agitação social que o envolvia e do sucesso garantido entre o sexo feminino. Um workaholic com uma ambição desmedida! Comentavam pelos corredores os colegas de profissão, os colaboradores, os adversários mais directos. Um Don Juan! Suspiravam as amigas, as colegas, as mulheres solteiras, as casadas e até as prostitutas que deambulavam e tropeçavam pelas esquinas do bar onde, impreterivelmente às quintas-feiras, tomava o seu copo habitual e se despia de máscaras e preconceitos, tornando-se mais mundano e mais real, permitindo a si próprio, por algumas horas, apenas ser, apenas sentir, apenas experienciar…

                De facto, Manuel Pedro não se podia queixar. Tinha uma vida quase perfeita! Cresceu no seio de uma família distinta, com todos os confortos que o estatuto social dos pais lhe podia propiciar. E nunca lhe faltou a atenção, o amor dos progenitores, o aconchego familiar. O seu percurso académico realizou-se sem sobressaltos. Fê-lo sempre com gosto e interesse sem que, por isso, tivesse que descurar as farras, os namoros, as paixões e as loucuras próprias da juventude. Viajou, conheceu mundo, apaixonou-se e desapaixonou-se. Trabalhou muito e construiu o seu próprio império, o seu próprio mundo feito de sucesso, de bom nome, de bons contactos e relacionamentos. No campo afectivo, seria feliz? Tinha, desde sempre, as mulheres mais bonitas, as mais vistosas, as mais ricas, as mais cobiçadas. Não! Raramente se apaixonou! Excluindo a sensual Catarina, a doce Rita e a exuberante Isabella, com quem manteve relações mais ou menos duradouras, jamais se apaixonara! O que, em termos práticos, também significava que raramente teria tido grandes desgostos de amor.

Então, a história de Manuel Pedro, agora quase a completar 50 anos, seria mais uma história feliz? Não poderia ter sido! Mesmo que naquela fatídica quinta-feira, à saída do bar, não tivesse avistado o velho Rafael do outro lado da rua. Mesmo que esse (re)encontro não tivesse acontecido, Manuel Pedro sabia que a excelência que sempre pautara a sua vida não podia permitir que carregasse tamanho segredo durante mais tempo. Era chegada a hora!

Que Deus te ajude, Manuel Pedro!