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sábado, 9 de novembro de 2013

Ah! Se eu pudesse...



Ah! Se eu pudesse… ter-te por mais uns minutos e recortar-te das sombras dos dias que demoram em mim! Se eu pudesse dizer-te que não quero que vás, que não quero deixar-te, que não quero perder-te nas vielas que se esgueiram à procura do mar.
 
Ah! Se eu pudesse segurar as tuas mãos e guiar-te pelos caminhos que o meu corpo esconde atrás da neblina desta manhã. Ah! Se eu pudesse olhar o fundo dos teus olhos e prometer que o futuro é hoje e aqui… Se eu pudesse, meu amor, se eu pudesse!
 
Ah! meu amor, meu amor! Se eu pudesse mostrar-te que a magia dos dias azuis mora no beiral das nossas manhãs; que os segredos que partilhámos estão guardados na areia que me acaricia os pés; que os beijos trocados penduram-se na árvore do meu coração nas tardes melancólicas deste jardim; que as promessas sinceras passeiam-se ao vento com os véus de incerteza que cobrem os meus ombros nus; e que as juras, as juras, meu amor, foram com as marés da noite em que acordei sem ti.
 
Ah! Se eu pudesse… apontar-te-ia o pássaro que bebeu o orvalho da nossa manhã; contar-te-ia do barco que acabou de aportar, ali mesmo em baixo onde começa o mar; emprestar-te-ia sorrisos colhidos aqui e ali, como quem apanha flores para engalanar a dor que teima em ficar; ler-te-ia uma história que fala de verdade e de abraços (embrulhados em fitas encarnadas) e de mãos dadas e de amor e de felizes para sempre!
 
Ah! Se eu pudesse, meu amor… ah! faria dos meus dias outros dias contigo, querer-te-ia em mim e ficaria em ti, como no para sempre das histórias bonitas onde a verdade e o amor estão sempre de mãos dadas!

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Aconteceu assim



Foi ele o primeiro a vê-la. Desacelerou o passo e não se importou com os encontrões dos turistas que vagueavam pela calçada entre sorrisos, fotografias e cheiro a flores. Engoliu em seco. Há anos que não a via. Continuava linda: naquele jeito pequenino e sorridente de ser. Olhava tudo à sua volta e tinha um semblante feliz, como se estivesse de bem com a cidade que calcorreava.
 
 
Ela viu-o. Apesar dos óculos de sol, ele percebeu que ela o vira. Estacou. Fez-se séria. Retomou o passo: agora lento, muito lento. Conhecia aqueles traços de cor, conhecia cada contorno daquele rosto, do corpo que o fato escuro escondia, e – mesmo passados estes quase vinte anos – ainda sabia a que cheirava a sua pele.
 
Pisavam ambos a calçada gasta, sem pressa; caminhavam cautelosamente (?), talvez nervosamente, como quem estuda o que fazer ou o que dizer a seguir – quando chegasse o momento. Não reparavam nos turistas, nos passantes, no movimento automóvel, no reboliço citadino daquele final de manhã, no sol quente de Julho que trazia o cheiro de Verão, de praia e de mar. Aproximavam-se devagar como se um atraísse – irremediavelmente – o outro.
 
Ele tocou o nó da gravata encarnada que sobressaía no fato escuro de porte elegante. Secou-se-lhe a boca. Coração disparado. Leve sorriso disfarçando um qualquer nervosismo que se instalara.
 
Ela tentou – quase ingloriamente – ordenar o pensamento. As pernas fraquejaram. O coração batia, desenfreadamente, parecendo querer saltar do seu peito.
 
Ele deu-lhe um “Olá! Há quanto tempo” enquanto segurava a sua face com a mão direita e beijava a outra, tão pouco apressadamente. Nesses segundos que demoram um beijo, ele sentiu a sua pele, o cheiro do seu cabelo e deixou-se transportar para um tempo longínquo, onde a felicidade se escrevia nos olhares cúmplices, nas mãos que tocavam outras e nas palavras carregadas de futuro.
 
Ela retribuiu com um “É verdade. Foi muito tempo!”, e deu-lhe um beijo também, um beijo mais envergonhado. Sentiu o calor, bebeu o instante e, nos mesmos segundos que demoram um beijo, viajou com ele por momentos felizes, que de tão felizes se tornaram eternos. Sorriu. Agradeceu a Deus este reencontro.
 
Ele perguntou-lhe pela vida. O que é que a vida fizera dela. Enquanto ouvia o relato de uma vida profissional bem-sucedida e a síntese de um casamento fracassado, lembrou-se do modo como se haviam separado, há muitos anos atrás. Sentiu um arrepio. Como tinha sido tolo. Toda a vida lutou por afastar da mente tal pensamento.
 
Ela também quis saber sobre o que a vida tinha reservado para ele. E ele contou. E o som sibilante que ele faz ao falar, os olhos sorridentes, o inevitável gesticular de mãos, fizeram-na pensar no quanto queria ter feito parte da sua história. Não aconteceu.
Ele prendeu uma madeixa do cabelo dela atrás da orelha, num gesto que, para os dois, era natural de tão familiar.
 
Ela ofereceu-lhe um sorriso franco – daqueles que entram no olhar e calam lá dentro, bem fundo na alma.
 
 
As perguntas e respostas surgiram atropeladas. Ele sugeriu acompanhá-la. Mudaria de direcção e assim conversariam por mais algum tempo. Ela aquiesceu.
 
Eu fiquei a vê-los desaparecer por entre a multidão de turistas que vagueavam pela calçada entre sorrisos, fotografias e cheiro a flores.
 

Não sei o que aconteceu depois.  

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Dos contos de fadas


Ele embrulhou a palavra pequenina na seda daquela manhã. Sorriu – tremulamente.
Por instantes, deixou-se ficar em estado de feliz contemplação: imaginou o momento; imaginou os olhos dela, colados nos seus; imaginou o sorriso envergonhado, escondido nas cascatas de loiros caracóis.

Abeirou-se da janela e sorveu o ar frio: estava nervoso. Mais uma golfada de ar e rodou nos calcanhares: tinha de ir, fazia-se tarde.

Pegou no embrulho, com a delicadeza própria de quem leva a vida na palma das mãos, e saiu.

Aconchegou o casaco e apertou o peito com os braços. Estaria com frio ou quereria apenas sossegar o coração inquieto?

Atravessou o seu bairro – passo apressado; cabeça na lua; sorriso estampado. E se…? Não. Optou por nem colocar a hipótese. Só mais um quarteirão. Consultou o relógio: não estava atrasado.
Abrandou o passo como se, de repente, não tivesse pressa. Chegou. Espreitou, nervosamente, pelo vidro que fazia de montra aos imensos doces da confeitaria.

Vislumbrou-a numa mesa de esquina. Livro na mão, chávena fumegante em cima da mesa. Estaria a sorrir? Sentiu-se fraco. Fechou os olhos. Respirou fundo. Acariciou o embrulho, com a mesma delicadeza de quem leva a vida na palma das mãos. Entrou.
Dirigiu-se à mesa e estacou: sorriso aparvalhado.

Ela levantou os olhos e abriu um sorriso:

- Chegaste. Que bom. Senta-te.

E ele sentou-se. Falaram sobre o tempo, sobre a manhã que – para os dois – parecia radiosa, sobre o romance que ela lia, sobre as letras das canções de Vinicius, Jobim e Buarque, falaram sobre lugares distantes – os que conheciam e os que gostariam de visitar -, sobre sonhos irrealizados, sobre projectos de vida…
Esqueceram-se da timidez que sempre haviam sentido quando estavam um com o outro, ele esqueceu-se de olhar nervosamente para as mãos, ela esqueceu-se de esconder a face rosada sob a cascata de caracóis loiros.

E ele ganhou coragem e entregou-lhe a palavra pequenina que havia embrulhado na seda daquela manhã:
- Amo-te, Ana.

Humedeceram-se-lhe os olhos e ela sorriu o sorriso mais doce.

E ele fê-la feliz, para todo o sempre!

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Um café e um amor


‘Quero um café e um amor, quentes, por favor.’ – li, há dias, esta frase num post qualquer e decidi ensaiá-la no simpático barzinho lá da rua, onde paro pela tarde antes de recolher a casa.

D. Antónia - figura pesada que, há mais de 20 anos, cria raízes atrás do balcão de madeira - fixou-me o olhar: não sei se zombeteiro, se apiedado; esboçou um meio sorriso e voltou costas para tirar a minha bica: ‘Aqui está o cafezinho, menina. O amor vem já.’ Ri-me com vontade: ‘Então ouviu, D. Antónia?’; ‘Ouvi, ouvi, menina. Sabe? Com o amor é assim mesmo. Às vezes, atrasam-se na entrega, mas chega sempre.’

O meu sorriso franco fechou-se de va ga ri nho, e os meus olhos procuraram a chávena – ainda cheia de café fumegante; desviaram-se para o pacote de açúcar (que ela sabe que eu não vou consumir mas que, teimosamente, insiste em pôr no pires todos os dias); os meus dedos brincaram com a pequena colher que revela o desgaste das muitas lavagens, devido ao uso (ou ao desuso). Senti o coração apertado e havia um ‘não-sei-quê’ que me impedia de enfrentar os olhos pachorrentos de D. Antónia. Os meus fizeram berço a lágrimas (de saudade? de pena da coitadinha que, naquele momento, habitava em mim?) e as minhas pernas enrijeceram-se na hesitação: acabar o café ou sair dali a correr.  Senti o braço determinado da D. Antónia que me envolvia e me empurrava para uma mesinha de esquina. Olhei para ela (acho que nunca a tinha visto do lado de cá do balcão: não a imaginava tão pequena), deixei que as lágrimas caíssem e sentei-me, em frente àquela senhora que eu conhecia (?) há tantos, tantos anos.

Segurou as minhas mãos entre as suas e deixou que o silêncio apaziguasse a minha alma e secasse a saudade que me escorria dos olhos. Só depois falou. Lembrava-se de mim (desde os meus quase 17 anos) e lembrava-se do Manel: do nosso namoro, do nosso noivado e do dia em que desapareceu - para sempre - da minha vida. Lembrava-se do brilho dos meus olhos e do cantarolar da minha voz sorridente – até então. Lamentava a tristeza e a tormenta em que, agora, todos os dias me via; achava – muito convictamente – que eu tinha baixado os braços, trancado a porta e deixado o amor lá fora.

Não me pediu explicações, nem, tão-pouco, fez pausas que me permitissem uma qualquer argumentação. Possuidora de uma sensibilidade inteligente, D. Antónia sabia o segredo das palavras e conquistou a minha atenção e o meu coração. Contou-me histórias fantásticas – da vida trivial, de desencontros, de amores ímpares e de desilusões avassaladoras – como se me mostrasse a sua colecção privada de cromos de experiências e afectos. 

O senhor Joaquim já há muito havia fechado a porta e empilhado as cadeiras, a menina Carla há muito havia gritado: ‘Até amanhã, D. Antónia!’; e a noite já ia alta quando me disse: ‘Vá menina, vamos descansar - que amanhã também é dia.’ Dei-lhe um abraço demorado e sentido e, no meio de um ‘obrigada’, colei-lhe um beijo na face. Humedeceram-se-lhe os olhos.

Dobrei a esquina e entrei em casa. Deitei-me com os gestos simples e com as palavras sábias e certeiras da D. Antónia. O meu mundo estava bem mais descomplicado quando adormeci.  A partir de então, passei a tomar o meu café com a velha senhora e a beber das suas palavras e dos seus ensinamentos. Destranquei a porta – não fosse o amor querer entrar.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Não era esta a sua hora


Sentou-se na mesa redonda da sala – a que ficava mais perto da janela, sobre o mar – e olhou para a folha de papel: limpa, branca, imaculada e inocente (poder-se-ia chamar inocente a uma folha de papel?). Tremiam-se-lhe as mãos quando pegou na caneta de tinta azul; largou-a de imediato, como se o objecto fosse feito de um fogo acre e redutor, e enfiou os dedos na espessa cabeleira, em jeito desesperado de quem só tem tudo a perder. Fixou o olhar no horizonte – do modo que fazia todas as manhãs, antes de iniciar as suas prazenteiras horas de escrita – mas não encontrou a inspiração que, há anos, o distinguia como grande escritor da actualidade.
Procurava as palavras: as mais acertadas. Haveria palavras certas e honestas para anunciar e justificar uma morte? Relutante, mirou a folha que permanecia – imóvel – à sua frente. Estava prestes a desvirginá-la mas, desta vez, sabia que não tiraria desse acto qualquer prazer. As palavras continuavam a atropelar-se na sua mente, chocavam umas com as outras – sem piedade, sem sentido, sem alma e já sem vida. Voltou a segurar a caneta; a mão ainda tremia e as lágrimas - roladas e espessas - que agora desciam as fendas profundas do seu rosto sofrido, pareciam querer acalmar o fogo que o consumia.
Forçou-se a cumprir a missão que o levara a sentar-se ali: escreveu: “Querida Eva, se estiveres a ler estas linhas é sinal de que já não estou convosco. Não posso pedir-te que me…”. Foi, subitamente, atingido por uma dor insuportável que lhe tolhia os movimentos, como se o seu corpo protestasse e se recusasse a aceitar o que a sua mente estava prestes a ditar para o papel. Num gesto de repulsa, voltou a atirar a caneta de tinta azul para a mesa. Puxou as pernas – para cima da cadeira que também era branca - e abraçou-as com força, na ilusão instintiva de que a posição, quase fetal, amenizaria aquela dor. Soltou um grito rouco e agonizante e caiu – sem forças – num choro compulsivo que já não lavava a alma.
Ouviu-se o som da chave a virar na fechadura (há quanto tempo estaria naquela letargia?); Eva entrava com o seu sorriso habitual e com a leveza de quem sabe que as crises são cíclicas e que as dívidas acabam por pagar-se; não reparou no seu ar de desespero quando lhe deu um beijo e perguntou: “Ainda trabalhas, meu amor?”; Clarinha correu para ele e - já dentro de um abraço – gritou: “Papá! Papá!”.
Raúl amarfanhou a folha branca que o ameaçava de morte: adiou um projecto.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Porque hoje o tempo dói


Um pesadelo ter de sair - mais uma vez - do morno dos lençóis a meio da noite. Há noites assim, que se deitam angustiadas, magoadas ou sofridas. Deixam de ser noites e passam a ser outra coisa qualquer; derramam lágrimas, deambulam pela casa, (des)arrumam prateleiras e gavetas à procura de respostas e de soluções onde elas não estão. São noites intermináveis, de silêncios tristes e de buscas interiores solitárias, de esperas atormentadas pelo despontar da aurora.

E eis que o dia nasceu indefinido, incerto, inseguro. O sol teimou em não aparecer e o ar estava algo entre o abafado e o sufocante. O exército de pássaros, que costuma passar revista às manhãs, parecia ter batido em retirada e os seixos rolados sossegavam tímidos e arrepiados na praia, como se não se quisessem molhar naquele mar de azul zinco estagnado. Surgem os primeiros transeuntes: eles bafejando cigarros, com cabelos abrilhantados por uma graxa qualquer, mãos e rostos marcados por vidas de labuta, pés que se arrastam pesados num chão gasto e sujo com trilhos marcados e com direcção; elas afogueadas, apressadas – porque se faz tarde e a vida não espera – entre um autocarro e outro, carregando sacos em mãos grossas com vernizes descascados, envergando saias pretas ( bem abaixo dos joelhos) que atrapalham os passos cansados e doídos do corre-corre infernal dos dias que se atropelam. E há o barco que atraca no cais – virá da pesca? Não se vê peixe. Só rostos fechados, enrugados e escurecidos pelo sol, silenciados pelo cansaço das noites que doem no corpo e na alma das gentes que trazem o mar no olhar. Mais acima, no mercado municipal, arrastam-se corpos que, pachorrenta e vagarosamente, carregam cestos de frutas e legumes frescos, coloridos, vistosos, que contrastam com a lassidão deste dia que dói. Mais uma vez as mulheres em azáfama, cabelos ainda molhados, as faces rosadas, a preparar as suas bancadas com apreço; os homens com olhos cansados e raiados de sangue, denunciando noites curtas com vinho, bagaços e cigarros baratos. Os mesmos cigarros, agora pendurados nos lábios arroxeados que soltam fumo espesso para as flores viçosas que as mãos calejadas arranjam em ramos: é blasfémia! A cidade começa a encher-se de carros, de barulho – muito barulho, um barulho que dói -, condutores pouco tolerantes e muito apressados; começa a encher-se de gente – gente anónima, que parece transportar em si histórias carregadas de sofrimento; começa a encher-se de crianças puxadas pelas mãos das mães – mochilas às costas, batas engomadas, cabelos penteados e alinhados, a esfregar os olhos para afugentar o sono que ainda mora por ali; começa a encher-se de gente que, sem sequer o ver, se desvia cuidadosamente do mendigo que dorme na rua, sujo e a cheirar mal.

Ai, eu quero sair daqui! Não posso, não aguento, não quero estar aqui. Dói-me a alma, dói-me o corpo, dói-me o dia, dói-me o tempo! Vou embora!

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Discurso mais que directo



- Meninos, venham para a mesa! O jantar está pronto.
- Vou já, mãe. Estou só a acabar este jogo.
- Vá, Ricardo, acabas depois. Agora vem comer.
- O que é o jantar, mãe?
- É o resto do assado de ontem e não quero queixumes, Teresa! Sabes que o pai tem andado cansado, não arranjes discussões, por favor! Luís, vens jantar?
- Não tenho fome!
- Por favor, Luís, senta-te connosco…
- E sento-me para quê? Eu disse que não tenho fome!
- Mas tens de comer, tens de alimentar-te e… os miúdos…
- Os miúdos, o quê? O que é que têm os miúdos? Os miúdos não são desculpa para tudo, Clarice! Estou farto disto! A Teresa tem 17 anos, está uma mulher! O Ricardo, 15! Por Deus! Já não são miúdos. Já têm boa idade para saber que a vida também é feita de instabilidades, rupturas, decepções… eles cresceram Clarice, não precisam deste tipo de protecção. E tu, mulher, que ridícula! Escudas-te nos miúdos para preservares o que já não existe… não achas que chega?
- Não fales comigo assim… já to pedi.
- E falo como, Clarice? Como é que se fala com alguém que não nos ouve? Como é que se fala com alguém que finge não perceber que já não existe nada para além da rotina e do tédio? Que insiste numa situação deplorável de coexistência! Como é que eu falo com alguém que já não me diz nada? Já não aguento isto! Não percebes que já não tolero isto?
- Luís, eu amo-te tanto, Luís… não suportaria…
- Qual não suportarias? Eu é que já não suporto estar aqui! Há dois dias que tenho as malas no carro, Clarice. Estás sempre com desculpas para evitar o inevitável… estou farto das tuas lamechices! Estou farto!
- Por favor… já to pedi. Senta-te comigo! Vamos conversar?
- Qual conversar? Não há nada para conversar: estou FAR - TO! Vou sair… vou-me embora! Podes secar as lágrimas, Clarice. Não me vou comover… tenho de ir!
- Por favor, Luís… lembra-te de nós. Lembra-te de tudo o que fomos…  sempre tão cúmplices, tão próximos, amámo-nos tanto! Tão companheiros, tão amigos, tão amantes… sonhámos juntos, planeámos juntos, traçámos juntos as linhas do nosso destino e conjugámos juntos o tempo presente e o tempo futuro.
- Chega, Clarice.
- Olha para tudo o que construímos, meu amor… olha para os nossos filhos, vê os nossos sonhos aqui, materializados. Não vires as costas à vida que sonhámos para nós… ainda não dançámos todas as músicas, Luís… ainda não navegámos todos os mares, ainda não cruzámos todos os céus… nós prometemos, lembras-te? Dissemos que quando fossemos bem velhinhos ainda iríamos contar estrelas, de mãos dadas… eu quero contá-las contigo. Lembra-te do nosso abraço, Luís… lembra-te a que sabe o nosso abraço. Procura, meu amor! Eu sei que se procurares no teu coração… eu ainda moro aí!

sábado, 5 de maio de 2012

E as estrelas, mãe? Onde estão as estrelas?


- Será que as estrelas morreram, mãe?
- Que disparate, filho. As estrelas não morrem.
- Então, onde foram? Fugiram, mamã? Estão escondidas? Acha que elas estão com medo do escuro?
- Oh filho!...  
Será que estou a sentir a impaciência a apoderar-se de mim? Como é que as crianças conseguem perguntar tantas coisas ao mesmo tempo? Vou à janela, tentar perceber o que raio se passou com as estrelas! Onde é que elas se meteram? Tenho tanta coisa ainda para fazer: dar um jeito na cozinha – que ficou “de pantanas” após o jantar; preparar os lanches para os miúdos levarem amanhã para a escola; organizar as máquinas de lavar roupa e louça – para só ligar às 23h, na esperança de poupar qualquer coisa com o contador bi-horário; depois, verificar as mochilas para não faltar nenhum livro, nenhum lápis ou borracha; aprontar as roupas para o dia seguinte – sem esquecer o saco separado para o ballet: as sapatilhas, as redes, agulhas e ganchos para o cabelo, o maillot e as fitas; e o saco para o futebol: equipamento completo, chuteiras e a braçadeira de capitão que usará orgulhosamente esta semana pelo bom desempenho no jogo de sábado!
- Vê, mamã? Não estão lá, eu tinha dito! – e abraça-se à minha perna com toda a força, à procura de abrigo e protecção para a dor que, subitamente, assaltou aquele coraçãozinho.
Afago-lhe os caracóis louros e sorrio… seco-lhe as lágrimas roliças e aconchego-o no meu colo. (Isto das estrelas é um assunto sério! Quase à escala do nosso amor.) Empurramos a chaise-longue para bem perto da janela da sala de estar e fitamos o céu nublado de Inverno.
- Sabes o que acho, meu pequenino? Que as tuas estrelinhas já foram dormir. Devíamos fazer o mesmo, vá, a mãe conta-te uma história…
- Não, quero ficar aqui, quero ver se aparecem! Por favor, mamã…
Quem é que resiste a um “pu favô” destes? Fixo, de novo, o céu vazio de luz, enquanto aperto o meu menino contra o peito. Já me está a apetecer zangar com as estrelas por elas não aparecerem… Tenho ainda tanto para fazer: ainda me espera a saga da lavagem dos dentes; os momentos de leitura – no quarto de um e de outro – que se alongam sempre com perguntas e com mais porquês e com tantas sugestões de final de história quanto o sono – ou a falta dele - permite. E quando a casa estiver, finalmente, mergulhada no silêncio, chegará a hora de organizar as minhas coisas e preparar mais um dia: sentar-me no cantinho que me serve de escritório e responder aos e-mails que ainda aguardam o meu parecer; ler as notícias do jornal de hoje – que, entretanto, perderam a actualidade; apontar os últimos gastos, regularizar contas (sim! Porque alguém tem de fazer a economia doméstica!), planear os próximos menus, consultar…
- Porque é que o mano está aqui, mãe? Não vai dormir?
- Vai já, princesa, está só à espera que apareçam as estrelas, para poder dormir descansado.
- Posso ficar um bocadinho também?
E enrosca-se nos meus braços com um suspiro profundo, daqueles que parecem dizer que o seu lugar é ali. E eu volto a sorrir, com os dois aconchegados. O cheirinho deles, o calor que emanam aqueles ‘bocadinhos de gente’ e o efeito que têm no meu sentir de mãe, transportam o meu pensamento para a analogia quase perfeita que fez, há dias, um amigo ao dizer que, quando os nossos filhos nascem, o nosso coração passa a andar fora do corpo. Passeio-me por memórias, não muito longínquas, de dias tão felizes que apagaram as noites mal dormidas, as fraldas, as asmas, as febres, as viroses e afins. Recuo ao princípio quase umbilical em que eu própria, sonhadora, olhava as estrelas e nelas projectava toda a poesia de sentimentos que já viviam dentro de mim e dentro da vida que havia em mim.
E sabe bem trilhar as recordações que fazem parte deste crescer bordado de ensinamentos e afectos, sustentado num amor que é sempre conjugado no indomável e no incondicional.  
E sabe bem tê-los aqui, comigo e em mim… e é minha missão fazê-los felizes, mesmo que para isso tenha de adiar a logística doméstica e familiar, e tenha de sentar-me aqui… à espera de estrelas que - eu sei - jamais morrerão!

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Já não tenho outro chão


Hoje é sábado. Disseram-me que é sábado. Tentei espreitar a data do jornal que estava em cima da mesa – só para certificar-me -, mas a vista já não alcança. São os óculos que reclamam reforma! Mas já não vale a pena!... Já não preciso de ler o jornal: um gesto repetido durante décadas e décadas, diariamente, após o pequeno-almoço, enquanto a minha Anita acabava de preparar os miúdos para eu levá-los à escola. Como era bonita - e paciente e dócil -, a minha Anita! A paciência era, sem dúvida, a sua maior virtude. E aqueles dois reguilas em casa… cirandavam e barafustavam e, às vezes, faziam tanto barulho que parecia que tínhamos uma equipa inteira de futebol dentro de quatro paredes.
Hoje já não preciso deles (dos óculos, claro está!). Já não leio o jornal. Ainda o folheio, é verdade. Acho que é o hábito; é pelo prazer de sentir o papel na mão. Trabalhei com papel a vida toda: fui contabilista (e sem essas máquinas modernas que sei que agora usam. Usávamos a cabeça e a inteligência que Deus nos deu!). O meu filho mais novo seguiu-me as pegadas; estabeleceu-se, está encaminhado! Muito orgulhosa ficou a minha Anita quando se formou o mais velho: um filho advogado! Era o senhor doutor lá do bairro. Chegou a apoquentar-se com o nosso caçula. Ah! mas para quê? O pequeno fez-se à vida e hoje está bem.
Será que é sábado, hoje? Penso que sim. Percebo pela azáfama - na sala de refeições – que dilui a pacatez dos outros dias, sempre mais cinzentos, o arrastar preguiçoso e cansado dos pés dos velhinhos (agora meus companheiros neste final de viagem) e o ar enfadado da D. Alzira e da menina Justina. Ao sábado e ao domingo é sempre diferente: a comida parece melhorada; há mais paciência nos gestos da D. Alzira e até a menina Justina já não diz: “Olhe só a porcaria que está a fazer, senhor Lopes. Abra a boca!”. Lembra, antes, ao pobre do Lopes, que vai receber a visita da família e que eles hão-de querer vê-lo fresquinho.
Estou a mudar de sítio, a minha cadeira é agora empurrada por alguém que me leva para a sala de convívio. Estou demasiado velho e demasiado preguiçoso para voltar-me e saber quem me conduz. Sei que vão deixar-me ali, junto à janela, para que possa ver o mar que estende o azul lá em baixo. E o mar invade-me as memórias de dias tão felizes: dias com cheiro a Anita, e a juventude, e a amigos, e a filhos pequenos… será que vêm ver-me hoje? A minha Anita não deveria ter partido antes de mim. Não é justo! Quem é que olha agora pelos miúdos? Eu já não tenho força e… estou aqui empatado, já não saio daqui, já não tenho outro chão. Será que vêm?
Sei que é sábado. Está a chegar a D. Matilde, ela só vem aos sábados. Vem ver a tia – que está mouca! Completamente surda, coitada!… Passa por mim e pergunta, amavelmente: “Como está hoje o senhor? Está um lindo dia lá fora!”. Olho para a D. Matilde, não digo nada, não esboço um sorriso – até os músculos estão preguiçosos! Sinto o perfume dela que impregna agora o ar com o adocicado das flores e sei que… oh! Chegou o filho do Sebastião, e traz os filhos pela mão. Que contente vai ficar o Sebastião. Já há semanas que não vinham visitá-lo! Será que eles vêm? Têm sempre tanto trabalho… são jovens muito ocupados e com muita responsabilidade, os meus pequenos. Dois bons rapazes, isso são!
Claro que é sábado! O filho da D. Marcolina também só vem aos sábados. Está sentado aqui à beira, com ar taciturno, mãos nervosas e irrequietas. Fala de crise e das falências que andam lá fora a assustar empresas e negócios, das lojas afamadas com papel pardo a substituir as cores vivas que, nas montras, marcavam as estações, dos políticos – “uns corruptos mentirosos que hão-de pagá-las! Sim, porque Deus não dorme” -, do desemprego que devasta famílias, fala também da crise de valores e das escolas “que já não são o que eram” e fala, fala que não se cala. E eu gosto disto de fingir que não ouço. Levam-me a sério! Não me maço, não tenho de responder ao que me perguntam e fico a saber de coisas que de outra maneira não saberia. Às vezes pode ser muito divertido!
Hoje é sábado, é mais um sábado… será que eles vêm? A menina Justina passa por mim, afaga-me o braço: “Então, hoje não teve visitas? Vai ver que amanhã aparecem.” Falta-me o ar, aperta-se-me o peito. Não quero chorar, que os homens não choram! A cadeira de rodas serpenteia os corredores. Está na hora de nos prepararmos para o jantar… sinto as faces molhadas. Mas que raio de óculos, já não valem nada, estragam-me a vista! Não, não estou a chorar, que os homens não choram! Hoje é sábado, mas eles não vieram.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O acordar de mais um dia...



O Sol ainda só está espreitando o dia que desperta bem devagarinho. Ouço o chilrear dos pássaros que espreguiçam esta manhã primaveril e vejo o mar que ainda dorme sereno, embalado por esta ilha que é mãe. Sigo o saltitar do melro-preto, ali na relva, por entre as árvores: vai anunciando o dia que nasce, e fá-lo com estridente alegria. Sinto a brisa tímida a acariciar-me os ombros nus. Enrosco-me no meu próprio abraço: sinto-me só!
Gostava que estivesses aqui. Gostava de poder desejar-te um bom dia com cheiro a acordar, ou a espuma da barba, ou a café com leite acabado de fazer. Queria dar-te um abraço, agora, já, neste exacto momento! Queria ficar lá, dentro desse abraço, saborear o teu sabor, o teu aconchego, a tua paz.
Fecho a janela devagar, deixo o dia que acorda lá fora e volto-me para a casa despida: de cheiros, de sabores, de abraços, de ti… sorrio para a moldura da cómoda que me devolve as gargalhadas de dias felizes. Ajeito os lençóis -demasiado brancos e frios- desta cama vazia. Vagueio descalça pelo quarto, esperando que o frio do chão que eu piso me arranque desta lassidão. Olho o espelho nos olhos, firmemente, mas não vislumbro respostas. Deixo que a água morna me percorra o corpo e me lave a alma e as lágrimas que não consigo conter.
Gostava que estivesses aqui. Gostava de poder contar-te os meus planos para o dia que está a nascer do outro lado da janela. Queria ouvir a tua voz, saber de ti… ver o teu sorriso malandro quando, ao apertares o último botão da tua camisa, perguntas: “Estou bem assim?”. Queria voltar a ver-te deliciado a comer torradas com mel, enquanto ouves as notícias matinais com o teu ar mais sisudo. Queria ter-te aqui comigo, agora…
Faz-se tarde, apresso o passo, tenho de ir. Vou encontrar-me com o dia que nasceu lá fora e deixar suspensos aqui – nesta casa vazia de ti – os retalhos da nossa vida, as memórias, os segredos, as ternuras, os sorrisos. Vou reaprender, a cada dia que nasce, a cada rua que cruzo, a cada esquina que dobro, a cada pedra que piso… vou reaprender a viver, desta vez sem ti. É tarde! Não posso chorar. Apresso o passo. Tenho de ir.
Ai como eu gostava que estivesses aqui!!! Às vezes, acho que Deus se enganou! A morte é injusta! Não se nos arrancam as pessoas assim! Não assim… Seco as lágrimas, enxugo a alma e tento não levar esta dor comigo. Vou deixar a dor à porta. A porta… olho para a porta e quero ver-te: sorriso aberto, olhos doces e porte elegante. Quero sentir-te, naquele segundo que antecede a partida: um passo atrás, mais um abraço, um beijo quente e um “amo-te tudo!”.  Quero ouvir-te quando, a caminho do dia que te aguardava lá fora, mais uma vez me olhaste e, apontando para o peito, me afiançaste: “Levo-te aqui, meu amor!”.
Não quero caminhar sozinha…
Gostava que estivesses aqui!...